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	<title>Novelasteen ♥</title>
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	<description>o seu site de literatura juvenil e e-books!</description>
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		<title>♦ 05 &#8211; Here comes a new challenger</title>
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		<pubDate>Sat, 19 May 2012 07:00:14 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Pirações de Pedro]]></category>
		<category><![CDATA[anos 90]]></category>
		<category><![CDATA[Colégio]]></category>
		<category><![CDATA[Light Novel]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>

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		<description><![CDATA[Pedro, Gordo e Caolho começam os preparativos para a grande sessão de RPG de sexta-feira, mas será que as meninas que vão jogar com eles não tem seus próprios planos? E ainda: nosso herói não aguenta ver Fernando enganando suas amigas e resolve agir!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/05/pedro5.jpg"><img class="size-medium wp-image-1415 aligncenter" title="pedro5" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/05/pedro5-300x247.jpg" alt="" width="300" height="247" /></a></p>
<p style="text-align: center;">(Imagem: Marcelo Cassaro)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Faltavam dois dias para o jogo de RPG mais aguardado</strong> dos últimos tempos. Claro que havia certa expectativa pelo fato do Raul começar a jogar com a gente, ainda mais porque ia ser a primeira que iria vê-lo depois da parada no cemitério. Mas o que estava realmente me deixando ansioso era que a Janaína ia jogar.</p>
<p style="text-align: justify;">O Gordo ficou interessado nela logo nos primeiros dias de aula e se apaixonou de vez quando fizeram um trabalho de Geografia. Era difícil na minha escola encontrar quem gostasse de rock. Como os dois gostavam, a conversa fluiu e se tornaram amigos. Daí em diante passaram a fazer vários trabalhos juntos e, quase sempre que eu encontrava o Gordo no intervalo, ele estava se despedindo dela antes de se juntar a mim no nosso tradicional local de leitura de gibis.</p>
<p style="text-align: justify;">Conhecia o Gordo fazia um tempo e nunca tinha visto o cara tão a fim de alguém assim. Já havia visto algumas paixonites, mas era aquela coisa de olhar para a menina, pagar um pau, descobrir que ela não quer nada sem nem ter tentado e assim prosseguia. Tanto que a gente ria dessas histórias. Eu ficava meio mal com qualquer fora que levasse, mas o Gordo parecia achar isso natural. Com a Janaína era diferente. Estava tendo o maior cuidado do mundo para não deixar a garota perceber o que ele queria “antes da hora”. Desta vez não queria que as coisas seguissem para o resultado de sempre. Dizia que tinha receio de perder a amizade e não poder mais falar com ela. Então achava melhor esperar pelo momento certo, fosse lá o que isso pudesse significar.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais que a “Teoria do Momento Certo do Gordo” me parecesse uma boa desculpa para não fazer nada, era obrigado a admitir que ele havia encontrado uma ocasião mais do que ideal. Não que ele fosse tentar algo com a Janaína no meio do jogo, mas ela iria passar o dia inteiro com ele fazendo algo que o cara adorava. Melhor ainda: algo em que éramos bons. Eu já havia jogado RPG com outros grupos e posso dizer com muito orgulho que nossa mesa mandava bem tanto em conhecimento de regras quanto em interpretação. Portanto tinha certeza de que a garota iria ficar admirada. Sem contar que o personagem do Gordo era um típico herói trágico, condenado e mesmo assim querendo ajudar os outros. Meninas costumam admirar este tipo de coisa, certo?</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei a tarde toda na casa do Gordo, tentando convencê-lo de ao menos tentar descobrir se a Janaína era a fim de alguém ou não, mas ele queria ir com calma. Todo mundo é bem diferente fora da escola e era isso que ele queria ver e analisar na sexta-feira. Mais do que isso: a garota tinha que curtir jogar RPG com a gente a ponto de querer voltar outras vezes. Isso sim seria perfeito! No fim da tarde, o Caolho chegou e foi colocado a par das novidades, mas disse que não ia poder chegar mais cedo porque tinha que esperar o Raul passar na casa dele. Ninguém achou ruim. A ideia de chamar a menina era para o Gordo ficar a maior quantidade de tempo sozinho com ela e não sabíamos direito o que esperar do Raul depois daquele dia. Ninguém ali se achava normal, mas também ninguém queria a Janaína e a Carla assustadas.</p>
<p style="text-align: justify;">É, tinha a Carla, a amiga patricinha da Janaína. A gente não entendia como as duas eram tão próximas e menos ainda como ela resolveu jogar RPG com a gente. A única opção plausível era que a Janaína não queria ficar sozinha com um monte de marmanjos. Bom, era uma opção mais legal do que imaginar que ela não queria ficar sozinha com o Gordo, opção levantada pelo sempre pessimista Caolho. Mas preferimos ao menos desta vez sermos otimistas e contarmos com a primeira opção. Além do mais, desde o começo o Gordo comentou que eu iria almoçar lá também. E foi com base nesta informação que o Caolho levantou uma hipótese que me deixou apavorado:</p>
<p style="text-align: justify;">– Será que as meninas estão querendo fazer um esquema entre Janaína e o Gordo e entre você e a Carla também?</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei branco na mesma hora, pois essa era uma coisa que jamais passaria pela minha cabeça. Se eu falava pouco com a Janaína (e olha que a achava legal), falava menos ainda com a Carla. Ela tinha um jeito de olhar para nós onde parecia se questionar o tempo todo coisas do tipo “por que a Janaína fala com esses caras?” ou “por que eu tenho que aturar essa gente estranha?”.  Era meio óbvio que a Carla só tava indo para não deixar a amiga sozinha. E eu ainda não sabia como ia ser se de repente o Gordo sumisse com uma e eu ficasse sozinho com outra. Mas o Caolho insistiu:</p>
<p style="text-align: justify;">– Para pra pensar: ela deve ter amigas que curtem rock e que estejam curiosas para jogar RPG. No prédio em que mora, de infância, sei lá&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Talvez tenha ficado sem graça de trazer alguém que eu não conhecia. – O Gordo comentou e concordei.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo, certo&#8230; – continuou Caolho. – Mas pelo que vocês me falam dessa Carla, ela vai, tipo, odiar o lance de sexta. Ela é tão amiga assim da Janaína pra aturar quase um dia inteiro isso tudo?</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que sim&#8230; – mas a palavras do Gordo não tinham muita segurança. – Elas estão sempre juntas e tal&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Gordo, você fala muito do Pedro pra elas? – ele perguntou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Peraí! – interrompi, com um certo receio do rumo que o papo estava tomando. – Quando foi que o foco da conversa passou a ser eu? Ela mal fala comigo e sempre me olha como se eu estivesse sujo de merda&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Como chama aquela mina que você ficou? – o Caolho me interrompeu. – A da escola?</p>
<p style="text-align: justify;">– Thais&#8230; – respondi, não entendendo nada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Pelo que me lembro. – ele continuou. – Vocês viviam brigando, você falava mal dela&#8230; E mesmo assim acabaram ficando, não foi?</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu quisesse saber aonde aquilo tudo ia dar, tinha que responder:</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim. Mas não deu certo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele se levantou e começou a andar de um lado para outro. Aquilo estava começando a me irritar. Então soltou:</p>
<p style="text-align: justify;">– Mas não deu certo porque vocês não queriam ou por que todo mundo ficou em cima de vocês e desanimaram?</p>
<p style="text-align: justify;">– Você sabe a reposta, caralho. – eu não deveria me mostrar irritado, mas escapou.  – Posso saber aonde cê quer chegar com isso?</p>
<p style="text-align: justify;">O Caolho olhou para mim com certo brilho no olhar:</p>
<p style="text-align: justify;">– De repente tem gente do seu lado interessada e você tá aí, viajando com alguém que mora longe. – e deu um sorriso de satisfação.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora tudo fazia sentido. Estava na verdade era querendo desviar meu foco da Camila com todo esse papinho sobre a Carla. Mas o Caolho me conhecia bem o suficiente e não disse isso à toa. Apesar de não ter pensando nada disso em relação à garota antes, a teoria dele era coerente a ponto de eu olhar diferente para a garota dali em diante. Filho da puta. Mesmo sabendo de tudo aquilo, uma mistura de curiosidade mórbida e ego ferido me fez querer ver até aonde podia ser verdade ou não. Claro que eu não iria demonstrar isso pra ele.</p>
<p style="text-align: justify;">– É, sou eu quem tá viajando mesmo&#8230; – comentei, desdenhando o assunto.</p>
<p style="text-align: justify;">– As duas bichas já pararam de se alfinetar, caralho?</p>
<p style="text-align: justify;">Nada como a sutileza do Gordo para nos trazer de volta ao que realmente interessava: planejar as coisas para sexta-feira. Ele pegou um caderno, caneta e começou:</p>
<p style="text-align: justify;">– Vou ter que convencer meus irmãos a ficar fora de casa à tarde. E acho melhor a gente comprar refrigerante ao invés de fazer chá..</p>
<p style="text-align: justify;">♦♦♦</p>
<p style="text-align: justify;">Ficar com a cara enfiada em livros, tabelas e fichas para montar uma aventura decente era uma ótima maneira de evitar papo com a Roberta entre uma aula e outra. Até porque montar o jogo desta semana estava um pouco mais complicado que o normal: tinha que bolar uma história que se encaixasse no que estava rolando e mesmo assim conseguir fazer com que três novos jogadores com personagens novos conseguissem participar. Não era fácil, mas estava ali pra isso mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Desci com minhas pastas e livros na hora do intervalo e, ao chegar ao lugar de sempre, vejo o Gordo, a Janaína e a Carla, todos em pé. A Janaína era um pouco mais baixa que eu, pele clara, gordinha e tinha o cabelo preto bem comprido e encaracolado. Usava uma pulseira de couro e suas unhas estavam sempre pintadas de preto. Não era uma menina que fazia todos babarem, mas era bonitinha e legal. Já a Carla era o extremo oposto: magra, loura, cabelo liso e olhos claros. Tinha um monte de pulseiras nos braços e um tênis branco com detalhes rosa. Era muito bonita e tinha um corpo na medida, sempre tinha alguém olhando para ela quando passava.</p>
<p style="text-align: justify;">– Oi! – disse a Janaína, parecendo bastante empolgada. – São esses os livros que vamos usar amanhã?</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, sim. – respondi. – Aqui estão descritas as regras e o cenário do jogo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela pegou o livro e começou a folhear:</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa, vou ter que decorar tudo isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Eu e o Gordo temos risada. Era hora de impressionar:</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, o único cara que tem a obrigação de saber disso tudo é o mestre. Os jogadores mesmo vão usar mais como consulta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continuava folheando o livro, admirada:</p>
<p style="text-align: justify;">– O Lucas comentou que você vai ser o mestre.</p>
<p style="text-align: justify;">Anotação mental: não chamar o Lucas de Gordo amanhã. Tenho que avisar o resto do pessoal também. Foi então que notei a Carla se aproximando para ver o livro também.</p>
<p style="text-align: justify;">– Esses desenhos são meio macabros, mas são bonitos. – ela então virou para mim. – Sério que você decorou tudo isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Era a primeira vez que a Carla olhava para mim verdadeiramente interessada em saber algo a meu respeito. Ela era realmente bonita e ter aqueles olhos verdes olhando diretamente para os meus me fizeram perder o rumo. Fiquei sem reação, olhando pra ela que nem uma besta.</p>
<p style="text-align: justify;">O Gordo deve ter percebido, já que se meteu no meio da conversa:</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, ele leu tudo sim. Mas se você começa a jogar sempre, acaba decorando também.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele conseguiu chamar a atenção da Janaína e começou a mostrar os clãs de vampiros para elas. Mas a Carla continuava de olho em mim.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá tudo bem? – ela perguntou, fechando a cara e voltando a me estranhar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, sim&#8230; – enrolei enquanto pensava em algo. – É que esse papo de decorar me lembrou que vai ter chamada oral depois do intervalo. Acho que vou tentar ir pra sala dar uma estudada&#8230; E Gor, hã&#8230; Lucas, na saída eu pego os livros com você, beleza? Falou!</p>
<p style="text-align: justify;">Saí dali indo pra qualquer lugar o mais rápido que podia. Queria ser enterrado de ponta cabeça e devorado por quatro mil minhocas. Mas que merda! Na primeira vez em que a Carla olha pra mim com um mínimo de interesse, em vez de mostrar que manjo da coisa, dou um vacilo colossal. Duvido que depois daquilo fosse conseguir chamar a atenção dela&#8230; Será que o Caolho estava certo e estraguei tudo? Mas era sempre assim: fico nervoso, me enrolo e já era.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez por isso eu não quisesse ficar a fim da Camila. Tinha medo levar um fora e ela sumir. É&#8230; No final não era assim tão diferente do Gordo. Ele pelo menos admitia que tava a fim da Janaína. Foi então me toquei que há momentos atrás estava praticamente dando bola pra Carla e me senti mal. Não me parecia certo estar interessado em alguém e xavecar outra pessoa, por mais gata que ela fosse. Tinha entrado de cabeça nessa história do Gordo pra fugir do rolo Gláucia-Fernando-Roberta e no fim estava fazendo igual&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, caramba.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentados no banco do pátio, naquele mesmo banco onde tinha visto a Gláucia chorando uns dias atrás, estavam ela e o Fernando. Conversavam alegremente, bem à vontade. Qualquer um que visse a cena sacava na hora que não eram só amigos. Mas ele não ficava com a Roberta na escola? O que tava acontecendo agora? Ela olhou o relógio, levantou-se, deu um delicado selinho nele e foi para o banheiro. Foi um beijo sutil, com ar de “até logo” e não de “tchau”. Meu primo se espreguiçou, parecendo satisfeito, e começou a andar em direção às escadas que davam para as salas de aula.</p>
<p style="text-align: justify;">Como alguém podia estar tão tranquilo enganando uma menina e dando esperanças para outra? Não sei se era porque estava me sentindo mal com o que tinha rolado comigo ou se estava de saco cheio de ver aquela palhaçada, mas o fato foi que parei o Fernando no meio do caminho e perguntei, indignado:</p>
<p style="text-align: justify;">– Mano, o que você tá fazendo?</p>
<p style="text-align: justify;">– Do que cê tá falando, Pedro? – ele parecia realmente não ter entendido.</p>
<p style="text-align: justify;">Respirei fundo antes de responder:</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sei que você tá ficando com a Gláucia e com a Roberta.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu primo ficou me olhando como se eu não tivesse dito nada demais. Resolvi insistir:</p>
<p style="text-align: justify;">– Cê acha isso certo?</p>
<p style="text-align: justify;">– Aff&#8230; – olhou para os lados, como se estivesse de saco cheio. – Cara, tô solteiro. Posso ficar com quem eu quiser.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava começando e me arrepender de ter começado esse papo. Mas agora iria até o fim:</p>
<p style="text-align: justify;">– Cê sabe que a Gláucia é apaixonada por você! Acha certo ficar iludindo a menina?</p>
<p style="text-align: justify;">Ele me olhava como se eu fosse o cara mais idiota do mundo e não soubesse do que estava falando. Mesmo assim respondeu:</p>
<p style="text-align: justify;">– Não to iludindo ninguém, cara. Estamos só ficando, mais nada. Nenhum dos dois quer namorar, já conversamos. E ela sabe que to ficando com a Roberta também. Vai saber se ela não tá com outro cara e não sei.</p>
<p style="text-align: justify;">Já vi que não vai adiantar falar da Gláucia. O jeito era mudar o foco.</p>
<p style="text-align: justify;">– E a Roberta? – perguntei. – Sabe disso tudo também? Até ontem você tava ficando com ela no intervalo e agora tá com outra!</p>
<p style="text-align: justify;">O Fernando suspirou e olhou para os lados de novo. Parecia mais preocupado em ver se nossa conversa estava chamando a atenção do que em me responder.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, ela não sabe. – acabou falando. – E mesmo que soubesse, não ia mudar nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Não precisei perguntar o porquê. O Fernando continuou:</p>
<p style="text-align: justify;">– A Roberta namora. Então acho que ela não tem muita moral pra me julgar se to com outra ou não.</p>
<p style="text-align: justify;">Pela segunda vez no mesmo dia, fiquei sem reação. A Roberta namora e nunca me contou? Eu achando que ela era minha amiga e estava escondendo isso de mim&#8230; Por que?</p>
<p style="text-align: justify;">O sinal soou, anunciando o fim do intervalo. O Fernando passou por mim dando uma ombrada e, quando me virei para ir para a sala, vi a Gláucia do outro lado do pátio. Pela cara de puta dela, deve ter sacado sobre o que eu estava conversando com meu primo. Fodeu.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Baixe o PDF</strong></p>
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<p style="text-align: justify;">(14 páginas)</p>
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		<title>□■ 19 &#8211; Conversa de quase irmãos</title>
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		<pubDate>Fri, 18 May 2012 08:55:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[O garoto de calças xadrez]]></category>
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		<category><![CDATA[Drama]]></category>
		<category><![CDATA[Problem-Novel]]></category>
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		<description><![CDATA[O que Erick vai fazer quando André o procurar para pedir conselhos sobre como agir com Joyce?!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/lovetree.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1370 aligncenter" title="lovetree" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/lovetree-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A porta estava aberta, chocara-se com força contra a parede do quarto em um estrondo intenso que fez as paredes tremerem. Joyce saiu correndo do quarto na maior velocidade que conseguiu, fugindo. A garota parou de correr apenas quando alcançou em seu quarto, entrou e trancou a porta como se quisesse se proteger de um monstro. Escorregou para o chão abraçando suas pernas e enterrou a cabeça nos joelhos. Chorou. Droga. Estava toda errada! Toda errada!</p>
<p style="text-align: justify;">Sua mente não conseguia realizar um só pensamento com sentido, tudo girava desconexo. O arrependimento arranhava sua alma e por um lado dizia que ela devia ter ficado no quiosque abraçada com André, outro lado, porém, se arrependia de ter fugido de Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce sentiu seu estômago revirar, com nojo de si mesma por pensar essas coisas. Até o presente momento se orgulhava de suas ações sempre íntegras, de ser uma garota virgem e pura, incapaz de desejar o mal pra alguém. Mas agora sua integridade estava rachada como uma lâmpada que explode durante um curto circuito.</p>
<p style="text-align: justify;">Como havia sido capaz de fazer uma coisa dessas?! Era raiva de André? Era o quê?!  Seu coração palpitava forte, algo mudara dentro dela.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria mesmo um beijo capaz de mudar sentimentos? Ela não queria mais voltar para o quiosque, ela queria voltar para os braços firmes de Erick, o garoto que a beijou com fúria e desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentiu que o seu mundo havia virado de cabeça para baixo. Ela não podia voltar lá porque tinha um namorado, e mais: Erick tinha uma namorada! Sofia, sua amiga!</p>
<p style="text-align: justify;">□■□■</p>
<p style="text-align: justify;">Erick, por sua vez, estava em pé no mesmo lugar que Joyce o deixara, encarando a porta escancarada, sem reação e sentindo uma pitada de decepção por sua fuga repentina.</p>
<p style="text-align: justify;">Oops.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentia seus lábios dormentes do beijo voraz que trocara com Joyce e um aperto horrível no peito que subia até a garganta, amargo. O que ele esperava? Que ela ficasse? Claro que não ia acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;">Soltou o ar que prendera nos pulmões e andou até a porta para fechá-la.  Voltou até a cama, deitando-se. Colocou suas duas mãos na cabeça e tentou não pensar no que tinha acontecido. Mas como não pensar se sua boca ainda sentia a boca de Joyce?</p>
<p style="text-align: justify;">O sentimento do tambor no seu peito voltou, esmagando suas forças, deixando-o sem ar. Ele já sabia que estava sentindo algo por Joyce. Teve certeza na festa de Joaquim, mas mesmo assim lutou contra isso porque sabia que era uma encrenca gigantesca, talvez uma das maiores encrencas que ele pensou algum dia se meter.</p>
<p style="text-align: justify;">Era muita confusão em muito pouco tempo! Será que ele não podia ficar um dia sem fazer alguma besteira? Sem estragar as coisas?! Ele estragava tudo! E isso, por mais que aliviasse a sensação de que havia feito algo errado, aumentava a sensação de culpa exponencialmente!</p>
<p style="text-align: justify;">Era um imbecil sem cérebro, só podia. E Sofia? Como iria encará-la depois de tudo isso?</p>
<p style="text-align: justify;">E foi quando achou que as coisas não podiam piorar, que alguém bateu na porta com toda a força que possuía, fazendo um enorme estardalhaço. Virou a cabeça e encarou o relógio digital do quarto, marcando nove horas.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que é? – berrou, de dentro do quarto sem se mexer. Achava que devia ser Márcio, irritado porque perdera a hora do jantar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick, abre aí, cara! – era André, com uma voz desesperada. – Erick! Abre aí!</p>
<p style="text-align: justify;">Erick respirou fundo, contou até cinquenta para recobrar sua sanidade mental e levantou-se para abrir a porta para André.</p>
<p style="text-align: justify;">Encarou o irmão postiço encolhido pelo frio, com a cara apática. Os olhos castanhos arregalados, como se tivesse visto um fantasma, os cabelos cacheados bagunçados pelo vento que ele provavelmente tomara no quiosque.</p>
<p style="text-align: justify;">– Cara, que demora! – e entrou no quarto, sem pedir licença, passando as mãos nos braços para se esquentar. – Vou usar o telefone.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo. – Erick não poderia discordar. Fechou a porta.</p>
<p style="text-align: justify;">André andou depressa até o telefone. Tentou sem sucesso umas três vezes. Desistiu com um suspiro de derrota e encarou Erick que bocejava, mas que o fitava com um olhar interrogativo, de quem não sabe o que está acontecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Coçou a cabeça:</p>
<p style="text-align: justify;">– A Joyce tá puta comigo!</p>
<p style="text-align: justify;">– É? – Erick procurou não se importar, mas ouvir o nome de Joyce naquele momento foi como levar um tiro no peito.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sem motivos! – André acrescentou. – Tá certo que eu falei pra ela pegar um cobertor ao invés de sentar com ela&#8230; mas pô.. meninas são estranhas! Ela ficou brava só porque eu não quis parar de jogar! – André continuou falando, meio que se confessando, meio que desabafando. – Era só um jogo, cacete. Não quis dizer que não ia lá pegar um casaco pra ela, só que ela tava enchendo o saco falando besteira&#8230; queria fazer não sei o quê!</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo. – Erick tentou acabar rápido com a conversa. Precisava de um porre, precisava esquecer-se de Joyce e mais do que nunca precisava que André calasse a boca!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ela é muito estressadinha, cara, cheia de mimos! Quer tudo do jeito dela&#8230; eu não faço nada de errado&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Erick sentiu seu sangue ferver com as palavras desferidas por André. Como assim nada de errado?</p>
<p style="text-align: justify;">– Você é idiota ou o que?</p>
<p style="text-align: justify;">– Como assim? – André deixou um sorriso nervoso escapar, com a braveza de Erick, que o encarava aborrecido com as sobrancelhas escuras curvadas por cima dos olhos claros feitos de gelo.</p>
<p style="text-align: justify;">– A Joyce tava chorando, seu imbecil!</p>
<p style="text-align: justify;">– Tava? Por quê?! – André se preocupou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porque você é um escroto!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu? O que eu fiz?! – se fez de desentendido e puxou as duas mãos no peito, simulando ser uma vítima.</p>
<p style="text-align: justify;">– Transou com a Guta!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, isso&#8230; – André sentou na outra cama. Deu de ombros e sua face tomou uma expressão mais chateada. Arrumou o casaco nos ombros. – Você não contou pra ela sobre isso, contou?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não. – Respondeu. Também não ia contar que tinha beijado Joyce e que ainda sentia os lábios dormentes, o coração esmagado e que queria beijá-la de novo mais do que qualquer coisa na vida&#8230; mais que tomar um porre.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, que bom&#8230; – André respirou aliviado. – Andei pensando nisso, sabe? Eu gosto de verdade da Joyce.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não parece. – Erick se incomodou com aquela frase, mas não sabia dizer se estava incomodado por ela ser mentira ou por ela ser verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu gosto, sim! Gosto mais que tudo na vida.</p>
<p style="text-align: justify;">– Deixa de ser piegas, André!</p>
<p style="text-align: justify;">– Falou, falou&#8230; você não sabe de nada.</p>
<p style="text-align: justify;">– A Joyce gosta de você de verdade. Mesmo você sendo esse otário! – Doía ter que dizer, mas era verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">– Dá pra parar de me ofender?</p>
<p style="text-align: justify;">– Quando você deixar de ser um imbecil, eu paro!</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso vindo de você não é nada, pelo menos eu não fico bêbado pra chamar atenção! – André irritou-se.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você é cara de pau, André. Você ainda tem coragem de vir aqui, pagar de “a pessoa mais correta do universo” depois de tudo o que fez! Quem não sabe da história que te compre, né?! Ao menos seja homem e assuma seus erros, eu não fico inventando desculpas pras merdas que faço, não!</p>
<p style="text-align: justify;">– Está bem! Eu admito! Eu fiz merda, comi a Guta. Duas vezes&#8230; e porra, a Guta é gostosa pra caralho, aqueles peitinhos redondos, affe&#8230; você viu! Não tem como resistir!</p>
<p style="text-align: justify;">– Agora a culpa é da Guta? Eu juro que não entendo essas meninas! Não sei o que elas veem em você!</p>
<p style="text-align: justify;">– São meus hormônios!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, vai se ferrar! Qual o seu problema, André? Por acaso acha legal ficar brincando com o sentimento dos outros?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não estou brincando com o sentimento de ninguém! Eu estou sofrendo também, tá?!</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá nada!</p>
<p style="text-align: justify;">– Você não sabe! Eu estou confuso!</p>
<p style="text-align: justify;">– Dá pra ver que você tá curtindo a história. Acha legal deixar a Guta chorando por você? Acha legal fazer a mesma coisa com a Joyce? Ao menos tenha a decência de dar valor ao que elas sentem por você, seu bosta!</p>
<p style="text-align: justify;">André ficou calado um momento. Suspirou e depois lançou um sorriso divertido para Erick:</p>
<p style="text-align: justify;">– Como você consegue fazer isso?</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso o quê?</p>
<p style="text-align: justify;">– Dar lição de moral assim nos outros como se fosse o dono da razão. Quem vê pensa que você é a pessoa mais correta da face da terra! Você não se enxerga, não?!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu tenho meus deslizes, mas ao menos não tô enganando ninguém. – o que agora era obviamente uma mentira, visto que Erick não estava sendo tão sincero quanto parecia ser.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não tô enganando a Guta!</p>
<p style="text-align: justify;">– Estou falando da Joyce!</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo&#8230; admito, estou enganando a Joyce! Mas não posso simplesmente contar a verdade pra ela! Não vou dizer que fiquei com a Guta agora que decidi que é da Joyce que eu gosto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se é da Joyce que você gosta, então porque não começa a tratar ela da forma que ela merece, hein? – saiu quase como um desabafo.</p>
<p style="text-align: justify;">– É, você tem razão&#8230; – André ponderou. Era um conselho verdadeiro. – Valeu pelo toque. É melhor eu começar a agir diferente, antes que ela comece a beijar outro cara&#8230; – e as palavras de André foram como facas afiadas e certeiras na moral de Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois ficaram em silêncio um tempo. Erick porque não sabia o que dizer depois do comentário e André porque estava pensativo. Pensava em muitas coisas, precisava se entender com Joyce!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu vou tentar falar com a Joyce. – e André ficou em pé, correndo para o telefone novamente. Tentou mais umas cinco vezes, desistindo, ao ver que Joyce não ia atender o telefone. Virou para Erick que observava tudo passivamente. – Vai, Erick, me ajuda!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não! – Claro que não.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que não?!</p>
<p style="text-align: justify;">– Se a Joyce não quer falar com você, o mais decente da sua parte seria esperar ela resolver que é hora de conversar. Não acha?</p>
<p style="text-align: justify;">– Por isso que você é esse perdedor de bosta, Erick. O time adversário está vencendo e você não está nem aí, deixa tudo desmoronar na sua frente. É um derrotado mesmo! – André não poupou ofensas.</p>
<p style="text-align: justify;">– E o que você pretende fazer? Passar a noite berrando na porta até a Joyce abrir? Grande luta, senhor vitorioso!</p>
<p style="text-align: justify;">– Pelo menos eu vou ter tentado! As garotas gostam de atitude, seu babaca! – e dito isso, André saiu do quarto. – Deixa a porta aberta pra eu voltar caso não dê em nada, ok?</p>
<p style="text-align: justify;">André abandonou Erick sozinho no quarto em meio à tempestade emocional. Realmente, estava tudo se desmoronando bem na sua frente e ele não conseguia ter nenhuma reação.</p>
<p style="text-align: justify;">O toque do celular de Erick cortou o silêncio. Levantou-se da cama e pegou o aparelho que estava em cima da mesinha que continha um abajur. Olhou no visor e viu o número de Sofia. Que péssimo timing.</p>
<p style="text-align: justify;">– Oi. – atendeu, meio sem saber por onde começar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick? Oi, é a Sofia. – sua voz soou amuada, meio sem jeito também. – Tudo bem? Está em casa?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, não estou&#8230; Acabei sendo arrastado pra um fim de mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Onde você está?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não sei.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como assim? – a garota preocupou-se.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, o Márcio inventou uma viagem de família. Aconteceu algo? – procurou mudar logo de assunto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Na verdade não&#8230; quer dizer, aconteceu tudo! – Sofia confessou sendo direta como sempre. – Estava aqui em casa meio chateada, passei o dia todo ruminando o que houve ontem&#8230; poxa, eu sinto muito. Não quis parecer grossa e nem brigar com você! Eu fiquei frustrada! Queria que você e meus amigos se dessem bem&#8230; sabe? E daí teve aquilo tudo, foi tão inesperado. Era isso que eu queria te dizer. Eu gosto de você e estou com saudades&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo. – Erick não estava com cabeça para lidar com problemas de relacionamento agora. Não com a boca dormente por causa de Joyce, muito menos com o mau humor por causa de André. – Posso falar com você depois? O André tá aqui do lado, tá meio chato falar agora. – mentiu.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah&#8230; claro. – suspirou chateada de novo. – Desculpe.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu te ligo amanhã quando eu estiver em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tudo bem, sem problemas&#8230; – procurou parecer uma namorada tranquila. – Desculpe, não queria atrapalhar. Até mais, beijos. – Sofia desligou o telefone e guardou no bolso da calã do pijama amarelo. Puxa vida&#8230; Erick estava mesmo esquisito depois do desastre da lanchonete.</p>
<p style="text-align: justify;">Sofia sentia-se especialmente triste porque dissera palavras carinhosas e Erick agiu como se fosse uma pedra sem sentimentos, feita do mais puro gelo. Isso era algo atípico dele, que costumava ser atencioso com ela. Apesar das aparências, Erick era carinhoso e sincero e aquela forma seca de falar era obviamente sinal de que havia algo errado.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sofia! – a voz de Isabella gritou na sala.</p>
<p style="text-align: justify;">– Já vai! – respondeu. Saiu de seu esconderijo dentro da lavanderia e passou pela copa, pegando a bacia de pipoca. Ensaiou um sorriso falso e entrou na sala de televisão, onde Isabella e Ênio estavam sentados no sofá, esperando-a. Ambos de pijamas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que demora, não era uma pipoca de microondas? – Ênio indagou, cismado.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah desculpa, me distraí! – mentiu, sentando-se ao lado de Isabella. – Vamos começar?</p>
<p style="text-align: justify;">Era isso o que faziam todo sábado: encontravam-se para assistir um DVD de algum filme CULT que Isabella escolhia. Normalmente francês.</p>
<p style="text-align: justify;">– Achei que agora que você está namorando, ia passar todos os sábados com o tal do Erick. – Ênio cutucou, enquanto Sofia ajeitava suas trancinhas ruivas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele viajou. – Sofia explicou com um sorriso amarelado. – Vamos nos ver só amanhã.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, tá explicado! Viu Ênio? Agora estamos em segundo plano! – Isabella provocou, cutucando Ênio com seu cotovelo, usando um babydoll cor-de-rosa com a estampa da Minnie Mouse.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, não Sofia&#8230; nada a ver você namorar aquele otário cheio de pregos. Você vai terminar logo, não vai? – O pijama de Ênio era verde com listras brancas, com ar de pijama de vovô, o que o deixava com um ar engraçado e maduro, por isso sua frase soou quase como uma ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai Ênio, que pergunta é essa? – Sofia não gostou da brincadeira. – E fala baixo, a Cecília tá vendo tevê no quarto, poxa vida..! Ela não sabe de nada!</p>
<p style="text-align: justify;">Isabella, para apaziguar, apertou “play” no DVD, iniciando o filme, antes que a conversa tomasse outros ares. Além do que, ficava irritada porque Ênio parecia enciumado. Mordeu a boca por dentro, procurando segurar a vontade de berrar e todo o seu ódio!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></p>
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		<title>♠ 07 &#8211; Convite</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 09:00:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Nina]]></category>
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		<description><![CDATA[Convencido de que sua teoria é a correta, Noah inicia um longo treinamento... e receberá um convite inesperado!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/05/heart.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1397 aligncenter" title="heart" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/05/heart-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O dia estava bem frio e por isso Nina vestia-se com um casaco vermelho de capuz enquanto corria rodeando o muro dos fundos da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi e voltou pelo mesmo caminho como uma atleta em treinamento, mas muito mais rápido do que qualquer humano poderia fazer. A terra se erguia conforme ela pisava. Parou abaixada com a mão na terra, em uma posição meio mulher meio lobo, mas ainda assim, uma garota de rosto delicado. Não estava ofegante e nenhuma gota de suor caía de seu corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vê? Muito mais rápido do que você qualquer dia já imaginou correr. – sua voz estava firme, convencida.</p>
<p style="text-align: justify;">– Faz mais uma vez.</p>
<p style="text-align: justify;">– Já fiz cinco vezes!</p>
<p style="text-align: justify;">– Você disse que não estava cansada. – Noah tinha suas duas mãos no bolso da calça jeans, coturnos bem amarrados e moletom preto. Estava totalmente recuperado de seus ferimentos e portanto, já podia voltar a ser o mesmo garoto insuportavelmente mimado de sempre. – Mas se quiser parar e beber água&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Não estou cansada! Mas não quero ficar brincando de pega-pega com o vento. Ou sujar as botas que sua mãe me deu. – eram botas de couro vermelhas, de cano alto e sem salto, a deixavam com ar de criança, mas sexy. Nina vestia saia xadrez e meias pretas, completando um visual de menina que enganaria o olhar da maioria das pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Só mais uma vez!</p>
<p style="text-align: justify;">– Você não está olhando minha calcinha, está? – perguntou desconfiada de tanta insistência.</p>
<p style="text-align: justify;">– Estou prestando atenção em outra coisa! E você está de meia grossa, não dá pra ver. – ele admitiu que já tinha tentado. – Vai, mais uma vez!</p>
<p style="text-align: justify;">Nina fez como ele pediu: correu de novo pelo mesmo caminho, indo e vindo em tempo recorde, ainda mais rápido que da última vez só para mostrar como ela podia correr mais depressa. Parou e olhou para Noah, o garoto suspirou chateado, como se não fosse conseguir.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele tirou as mãos do bolso revelando que em cada dedo haviam muitos anéis. Eram aqueles que ficara fazendo a semana inteira de madrugada, mas de diversas cores: preto, vermelho, dourado, prateado, azul, lilás e verde. Nina achava que ele parecia um cigano brega com eles, mas poupou o comentário. Ela sabia que eram anéis mágicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Noah parou do lado da garota e se preparou para correr com ela. Era parte do treinamento que ela prometeu, se ele quisesse vencer um lican, teria que ser capaz de superá-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Se você tropeçar de novo eu não vou te segurar. – Nina provocou, como todo lican gostava de fazer antes de uma competição. Ele riu divertindo-se. – Pronto?</p>
<p style="text-align: justify;">– É! Vamos! – ele deu o sinal.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina saiu correndo na frente com sua potência de arranque superior, quando achou que ele tinha ficado para trás um vento forte passou por ela balançando seus cabelos claros e, em instantes, Noah estava na sua frente movendo-se bem depressa. Ele a passou, mas não conseguiu parar e nem fazer o retorno, esmagou-se contra o muro em um estalido seco.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai! – gemeu com o encontrão e caiu no chão com a mão no ombro sentindo dor. – Que droga!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ou você vai muito rápido, ou vai muito devagar! – ela se aproximou e ajudou ele a ficar em pé oferecendo as mãos. – Vai acabar se quebrando inteiro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não vou me machucar&#8230; Magos não se machucam.</p>
<p style="text-align: justify;">– Diga isso para aquele pinheiro. – debochou, com um sorriso divertido.</p>
<p style="text-align: justify;">Noah resmungou e bateu a poeira da roupa, não ia retrucar porque Nina tinha feito uma observação verdadeira. Magos se machucavam, afinal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nunca vou conseguir correr depressa o suficiente e controlar para onde tenho que virar&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que o derrotismo super guerreiro? – era mais um deboche. Ele ergueu as sobrancelhas para ela e afrouxou o maxilar escolhendo um palavrão. – Talvez você esteja usando o feitiço errado.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não tem nada de errado com o feitiço! – defendeu-se energeticamente. Se havia uma coisa que incomodava Noah era quando alguém insinuava que ele não soubesse alguma coisa. –  É simples de conjurar, rápido e eficiente!</p>
<p style="text-align: justify;">– Obviamente não está funcionando, talvez não seja o mais adequado. – Nina deu de ombros, mas ela não entendia nada de magia, apenas via que o resultado não estava a contento. – E se você virasse um gato ou um pássaro? Seria mais eficiente para fugir!</p>
<p style="text-align: justify;">– A intenção não é fugir, sua sonsa! É perseguir!</p>
<p style="text-align: justify;">Nina segurou a risada mordendo a língua. Já havia se esquecido de que a teoria dele era de ser um super-herói. Achava até bonitinho como ele ficava irritado com tão pouco, mas ele estava delirando em sua opinião!</p>
<p style="text-align: justify;">– Então chega de moleza! Você precisa ir muito mais rápido se quiser alcançar um lican, especialmente na forma de lobo! – ela voltou para o início do percurso. – Ande logo, Clark Kent, pois temos debate de matemática no segundo período.</p>
<p style="text-align: justify;">– No debate sabemos que você vai perder. – ele piscou um dos olhos desafiando-a.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vai sonhando!</p>
<p style="text-align: justify;">E juntos, correram mais uma vez no perímetro do muro escolar. E de novo. E de novo. Repetidas vezes. Até que o sinal da aula tocou e metade dos anéis de Noah haviam sumido com a utilização do feitiço, um a um, cada vez que ele usava. Nina venceu o debate porque Noah dormiu exausto durante a aula.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos demais dias, treinaram juntos em todo o tempo livre que tinham até acertarem as magias de Noah. Às vezes Nina se cansava de tanto que ele errava e sentava para vê-lo repetir tudo sozinho, por horas, com uma disciplina e determinação incríveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era só correr tão rápido que ele pretendia. Dia após dia, Nina o viu controlar os elementos naturais e as energias do universo com precisão. Ela conheceu habilidades surpreendentes em um mago! Coisa que ela nem imaginava que seria capaz de acontecer!</p>
<p style="text-align: justify;">Uma simples moeda de níquel (ou qualquer outro metal) nos dedos de Noah viravam adagas, que com um sopro encravavam-se violentamente no tronco de uma árvore para rachá-lo ao meio, e se a adaga não fosse suficiente, ele podia invocar um raio elétrico do céu ou envolvê-la em poderosas chamas, ou ainda, criar uma arma astral que a reduziria em pedaços em questão de segundos. Nina viu Noah reduzir pedras do tamanho de um carro a pó em um único golpe mágico, usando um feitiço chamado Mjolnir que invocava um martelo feito de energia violeta. O martelo podia ser de qualquer tamanho e acertar os mais variados alvos.</p>
<p style="text-align: justify;">Observando aquele treinamento ficou claro para Nina que um mago, quando queria, poderia ser muito letal! Entretanto a energia se esgotava, era como se a magia estivesse drenando a energia do mago até a exaustão. Duas coisas aconteciam naquele ponto: o mago perdia temporariamente sua energia e não conseguia conjurar mais nada durante um tempo (que poderia ser horas ou dias), ou, em casos extremos em que a energia usada saía muito bruscamente, ele perdia totalmente as forças caindo inconsciente no chão, ou até mesmo morto!</p>
<p style="text-align: justify;">Noah contou que sua avó, Minerva, havia falecido despejando muita energia em um feitiço de proteção durante um ataque de outros magos ao seu castelo e, por causa da idade, tivera um derrame que causou sua morte imediata. Era necessário que o mago conhecesse seus limites e os respeitasse, escolhesse as magias corretas e conjurasse os feitiços de melhor custo-benefício para determinadas situações, um erro na estratégia poderia custar sua vida no campo de batalha.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante os últimos dias Nina viu Noah testar magias novas e levá-las à perfeição em uma execução rápida e eficiente, da mesma forma que um atleta fazia, treinando e empurrando seus limites para frente. Ela também descobriu que o uísque que Noah bebia era um catalisador para feitiços, mas ela também sabia que era a desculpa perfeita para ele ficar bêbado! Nos dias de treinamento, todo o uísque que Noah bebeu fora utilizado em feitiços e as magias feitas com uísque pareciam mais fortes do que as que eram feitas sem, porém, havia um limite do que se podia ingerir, já que realizar um feitiço embriagado era uma faca de dois cumes e um deles ficava virado para o próprio mago, que podia errar a conjuração e acabar se ferindo com sua própria magia e dependendo do feitiço, isso seria fatal.</p>
<p style="text-align: justify;">O que Nina achava que era algo simples, tornou-se algo extremamente complicado diante de seus olhos e a garota até se surpreendeu ao pensar que, por mais insana que fosse a teoria de Noah, ele estava treinando diariamente por horas com a única intenção de protegê-la.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomar consciência disso foi um choque ao qual Nina não estava preparada. Ali sentada na grama, enquanto o sol se punha, Nina ouviu as batidas do seu coração aumentarem e esquentarem o peito. Ela levou uma das mãos ao zíper da sua blusa de capuz branca e prendeu o ar nos pulmões. Seria possível que ele se importasse com ela tanto assim? Ao mesmo tempo que ficou radiante de alegria por pensar nisso, Nina automaticamente se repreendeu. Era proibido, ela não podia levar isso adiante e além do mais, com certeza Noah só se importava com ela do jeito que uma criança se importa com seu cachorro. Ficar se enganando doía demais, Nina sabia, vivia naquele inferno. Suspirou chateada e encolheu as pernas, puxando a meia listrada azul até o joelho, ainda indecisa se gostava dos figurinos que Syrce fazia ela vestir ou não.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei Nina! – a voz de Maya soou pelo campo. A menina se aproximou, segurando o boné que usava por cima dos cabelos negros trançados. Ela estava andando com os filhotes, junto com duas outras licans de mais idade e que cuidavam dos bebês.</p>
<p style="text-align: justify;">Na alcateia, haviam fêmeas que tinham como principal função criarem os nascidos e Maya era uma delas. A função de criar um bebê lican era muito importante e portanto as fêmeas beta eram muito valiosas para o bando. Nico era um dos lobinhos negros que vinha saltitando, ele pulou em cima de Nina lambendo seu rosto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nico! – Nina o abraçou com saudades, afastada de casa, ela mal tinha tempo para sua família ou amigos. – Estão passeando?</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, estamos. – Maya apontou para Kali e Sami, que acompanhavam aquele passeio para proteger os filhotes de qualquer mal que pudesse acontecer, o que lembrou à Nina do estado de alerta que se estendia ainda na alcateia. – Você está tão distante esses dias, temos saudades!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu tenho saudades também. – Nina ficou em pé e abraçou Maya com carinho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que não vem com a gente ao cinema hoje? Vamos assim que os pequenos dormirem. A Savana vai levar o Rafael, você sabia que eles estão namorando, não sabia?</p>
<p style="text-align: justify;">– A Savana e um humano? Eu sempre achei que ela gostasse de ficar na forma de homem-lobo mais do que qualquer outra coisa&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso passou quando o Rafael a convidou para tomar um sorvete na escola&#8230; agora ela fica na forma humana o tempo todo! Sami está morrendo de ciúmes.</p>
<p style="text-align: justify;">– Pobre Sami&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Que nada, é exatamente esse o plano da Savana! O Sami sabe que ela quer sair com ele desde&#8230; bem, desde que ela começou a querer sair com ele; mas ele nunca a chamou. – Maya riu. Era bem típico de Savana fazer essas coisas. Uma pedra explodiu soltando uma fumaça negra, era Noah errando pela trigésima vez a magia que tentava fazer. – E você? Tudo bem com o mago?</p>
<p style="text-align: justify;">– É, tudo como sempre. – Nina falou com amargor e acariciou a cabeça lupina de Nico que aranhava sua perna pedindo atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você ainda pensa&#8230; bem, você sabe&#8230; nele? – Maya perguntou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, isso já passou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que mentirosa&#8230;! – Maya riu, segurou no braço de Nina com as suas unhas pintadas de azul no mesmo tom da sua blusinha. A intenção foi de sentir a energia de Nina, saber pelo enrijecer e soltar de seus músculos se ela estava mentindo mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina deu de ombros, colocou as duas mãos nos bolsos do moletom e evitou olhar para Maya. Uma coisa intrigante nas fêmeas beta era a capacidade delas de saberem, tal como uma mãe, o que os lobos sentem só de olhar dentro de seus olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Pense em ir ao cinema conosco. – Maya continuou com um sorriso no rosto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não posso abandonar meu posto&#8230; você sabe que agora eu tenho que ficar vinte e quatro horas farejando o chulé dele. – Nina apontou para Noah com o dedo por cima do ombro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Mas e se o mago for com você?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele não iria&#8230; ele nem gosta de sair do quarto dele!</p>
<p style="text-align: justify;">– Vamos apostar? – Maya passou por Nina e foi andando até onde estava Noah.</p>
<p style="text-align: justify;">– Maya! Não! – Nina foi se mexer para ir atrás da amiga, mas Nico mordeu seu short jeans puxando-a. – Nico, me solta!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei, Noah. – Maya o chamou, mantendo uma distância de um metro entre eles, com medo de se aproximar do mago, pois saia um raio vermelho de suas mãos e acertava uma pequena pedra. Magia era uma coisa incompreensível para licans, a maioria simplesmente tinha medo disso.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que foi? – ele não interrompeu o feitiço, continuava com as mãos unidas fazendo uma espécie de triângulo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nós vamos ao cinema hoje e queríamos que a Nina estivesse com a gente, sabe, fazem muitos dias que não a vemos&#8230; será que você se importa de ir conosco para ela poder ir? – foi direto ao ponto, licans não gostavam de enrolação.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá bem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sério?</p>
<p style="text-align: justify;">– Pareço estar brincando pra você? – a pedra explodiu. – Droga!</p>
<p style="text-align: justify;">– Concentrado aí no que está fazendo é que não está. – Maya falou, nem um pouco intimidada com a grosseria de praxe dele. Ele virou a cabeça em sua direção com um olhar impaciente, mas Maya tinha um sorriso feliz no rosto. – Obrigada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que seja. – ele chutou uma pedra para longe e colocou as duas mãos no bolso. – Que horas vocês vão?</p>
<p style="text-align: justify;">– Assim que os filhotes dormirem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não falo sua língua de lobo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Quer dizer ao anoitecer. – ela soltou um risinho ao explicar. – Costumamos nos encontrar na fogueira, a Nina sabe onde é.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá bem, estaremos lá&#8230; se ela quiser ir.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ela quer. – Maya o respondeu com firmeza. – Obrigada, mais uma vez! Te vejo lá.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Maya retornou para perto de Nina, deu uma piscadinha vitoriosa. Nico soltou seu shorts e foi cheirar os sapatos de Maya.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ganhei a aposta!</p>
<p style="text-align: justify;">– E qual o preço?</p>
<p style="text-align: justify;">– Depois eu te conto! – Maya riu. – Nos vemos na fogueira essa noite! – A menina afastou-se sendo seguida por Nico.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao juntar-se ao bando, Nico acenou para a irmã com um latido. O bando já retornava para o acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina ficou feliz em poder sair com os amigos de novo, por isso, correu até Noah e o abraçou como uma criança feliz:</p>
<p style="text-align: justify;">– Obrigada!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai, você está me atrapalhando. – ele se afastou dela, o raio que era vermelho ficou verde e ele interrompeu o feitiço rapidamente. Colocou as mãos no bolso do casaco jeans. – Não sabia que você gostava tanto de cinema&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Todos os meus amigos vão! – Nina afastou-se e manteve a distância segura de oitenta centímetros de novo, mas tinha vontade de jogar ele no chão e encher de lambidas felizes. – É super divertido, você vai adorar!</p>
<p style="text-align: justify;">– Não gosto de cinema. – ele a respondeu com desdém e foi juntar suas coisas dentro da mochila, colocando-a nas costas. – Vamos embora.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina o seguiu de volta para a casa principal.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Celsius não se opôs à saída inusitada de Noah, considerando que sair com um grupo de licans era seguro o suficiente. Nina não deixou que Noah usasse o carro, alegando que divertido era ir com os amigos caminhando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Caminhando? Ou correndo com supervelocidade de lican?</p>
<p style="text-align: justify;">– Que diferença faz? Você já pode acompanhar e até correr mais depressa que a gente. – Nina deu de ombros e ajeitou o casaco azul marinho que usava por cima do vestido branco que Syrce a fez usar.</p>
<p style="text-align: justify;">Conversavam enquanto desciam pela escada de cimento, Nina ia na frente radiante de alegria. Savana, Sami, Kali, Aron e Maya estavam esperando por ela na fogueira. Era uma praça que ficava atrás do acampamento da alcateia, na qual durante as luas cheias acendiam uma fogueira e todos se reuniam em tradição.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que viram Nina, a rodearam cheirando suas roupas e cabelos. Aron não se mexeu, ele ficou encarando Noah de braços cruzados e fazendo cara de mau, nitidamente enciumado por conta de Nina. Aron sentia seu território ameaçado e como um bom lobo, estava apenas se defendendo. Noah nem percebeu, ou se percebeu, não se importou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai que bom que você veio! – Maya agarrou-se aos seus cabelos cheirosos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa, está parecendo uma bonequinha! – Savana se encantou com suas roupas novas, mas fungou seus cabelos também.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu também estou feliz de ver vocês. – Nina falou sorrindo para eles.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vamos? – Sami chamou.</p>
<p style="text-align: justify;">Juntos eles caminharam pela propriedade, conversando sobre o filme que iriam assistir. Savana e Maya queriam ver um filme romântico bem dramático que estava em cartaz e os meninos, um filme de ação com corrida de carros. Nina preferia uma comédia, com ou sem romance, desde que a fizesse rir.</p>
<p style="text-align: justify;">– Então o Noah escolhe. – Savana falou, andava de braços dados com Maya.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que eu? Nem gosto de cinema. – retrucou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por isso mesmo, é um voto neutro! – Kali explicou. – O filme de corrida de carros, que tem tiros e mulheres gostosas de montão, o filme de drama que vai embrulhar nossos estômagos ou a comédia bobona que não deve nem ter graça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tanto faz. Não me interessa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se não interessa, por que você veio? – Aron perguntou, estava doido para mandá-lo embora.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que a Maya pediu educadamente, ao contrário de você. – respondeu de bate-pronto, fazendo Nina derreter. Era essa arrogância que ela tanto amava! Um mago petulante que não tinha medo do mais poderoso lican da alcateia, que era Aron. Qualquer outro lican da vila estaria ganindo de orelhas baixas e rabo entre as pernas, mas não Noah! Ele até lançou um sorriso de canto para Aron, provocando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Foi para a Nina poder vir com a gente! – Maya explicou e segurou nos ombros de Nina, para enfatizar de quem estava falando, como se ninguém soubesse. – Não é uma graça quando os garotos fazem as coisas por você?</p>
<p style="text-align: justify;">Nina sentiu as bochechas pegarem fogo. Maya fez parecer que Noah tinha aceitado ir ao cinema para agradá-la, como os namorados fazem com as garotas. Ela tentou reprimir os sentimentos que aquilo causou, a explosão bem no centro do coração bombeando sangue rapidamente por seu corpo, mas não deu certo. Todos os seus amigos perceberam o acelerar das batidas do coração, pois eles podiam ouvir nitidamente.</p>
<p style="text-align: justify;">– Hunf. – Aron resmungou, cruzando os braços de novo. A noite estava apenas começando e a sua paciência estava no limite!</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></p>
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<p style="text-align: justify;">(15 páginas)</p>
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		<title>□■ 18 &#8211; Depois da tempestade, mais tempestade</title>
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		<pubDate>Fri, 04 May 2012 09:00:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[O garoto de calças xadrez]]></category>
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		<category><![CDATA[Drama]]></category>
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		<description><![CDATA[Não é só Erick que está tendo um sábado horrível, mas também Joyce. O que pode acontecer quando as dificuldades aproximam as pessoas?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-thumbnail wp-image-1353 aligncenter" title="kissing" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/05/kissing-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sueli aproveitou que Márcio estava no banho e que André e Joyce aproveitavam o fim de tarde para andar pelo rio, e ao invés de fazer o que normalmente faria – olhar vitrines de loja do hotel – dirigiu-se para a porta do quarto onde estava Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">Márcio estava tentando não parecer que tinha “doze anos”, como apontara seu filho no momento de discórdia e cedeu separando André e Joyce em um quarto para os dois, enquanto ele e Sueli ficariam em outro. Por esta razão Erick estava sozinho em um quarto de três camas.</p>
<p style="text-align: justify;">Teve que bater na porta com insistência para ela se abrir. Encarou Erick com cara de sono. O quarto estava escuro, com as luzes apagadas, indicando que o garoto estava dormindo, provavelmente com os fones de ouvido e por isso não a ouviu bater por quase meia hora.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que foi? – Erick perguntou ao abrir a porta, de roupa amassada e cabelos desarrumados.</p>
<p style="text-align: justify;">– Preciso falar com você, posso? – Sueli perguntou com um sorriso sem jeito, procurando ser simpática, mas sua voz estava endurecida e séria. Não era preciso ser nenhum gênio para adivinhar que lá vinha sermão.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick abriu espaço para a mulher entrar no quarto, concordando com a conversa.</p>
<p style="text-align: justify;">Sueli percebeu que o ar estava congelado pelo resfriamento artificial e as cortinas fechadas, isolando qualquer elemento lá de fora, como se Erick estivesse se recusando a aceitar que estava naquele hotel. Erick acendeu a luz, para que eles pudessem conversar e fechou a porta com desgosto, antecipando o sofrimento pelo que imaginava que viria a se seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentaram-se à macia cama de lençóis coloridos postos pelo hotel. Ficou um silêncio profundo entre os dois, uma estranheza. Durou até que Sueli resolveu dizer alguma coisa:</p>
<p style="text-align: justify;">– Já jantou?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não estou com fome&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah sim. – ela ajeitou o coque banana em sua cabeça de cabelos tingidos e escovados. – Você está bem?</p>
<p style="text-align: justify;">– Uhum. – Erick a examinou. Estava claro que ela queria dizer alguma coisa, como passar um daqueles sermões típicos de pais. Nervosamente ela apertava com as duas mãos em seus joelhos, por cima da calça vermelha e social, tinha os braços cobertos por um suéter azul claro, nada combinando e exageradamente colorido.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa era Sueli, uma tia perua. Apesar disso, era uma mulher bonita, mas que se esforçava demais para se arrumar, o que a deixava sempre com um ar exagerado, cheia de joias no pescoço, orelhas e mãos. Mas tinha um sorriso gentil, desses sorrisos que as mães legais sabem dar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu queria conversar com você, Erick. – a mulher falou, surpreendendo o garoto com sua coragem de ir direto ao ponto. – Desde que você se mudou não tivemos a chance de conversarmos em particular&#8230; e já faz um tempo que está em nossa casa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Conversar? Sobre o quê? – Erick impacientou-se e não procurou esconder o seu tom de voz. Era óbvio que vinha um sermão. Estava de saco cheio de sermões.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não vim te dar uma bronca, querido. – sorriu confortavelmente, colocando uma de suas mãos no ombro de Erick na tentativa de acalmá-lo. – Já faz um tempo que você está morando conosco, estamos todos passando por um momento de adaptação que é difícil e demorado, mas&#8230; eu quero que me responda honestamente o que vou te perguntar, pode ser?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ok&#8230; – foi quase hipnotizado pelo olhar profundo e cheio de máscara para cílios preta de Sueli. Era um olhar materno, carinhoso, que até doeu de saudades de sua mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você está bem? – ela perguntou calmamente, olhando fixamente para o garoto.</p>
<p style="text-align: justify;">Oh-oh. Quando viu Erick abaixar a cabeça e perder a coragem de encarar-lhe, Sueli sentiu seu coração apertar como se estivesse sendo espremido por duas paredes de concreto cheias de espinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele obviamente mentiu:</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, claro&#8230; tudo bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, Sueli não soube o que dizer. Engoliu seco, segurando na garganta suas mágoas de mulher. Deixou seu coração falar por si:</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick&#8230; na sua idade, com todas as coisas pelas quais você está passando&#8230; ninguém espera que esteja tudo bem com você. É compreensível inclusive que você não esteja nada bem&#8230; e nessas horas todos sabemos como é fácil ser irresponsável, agir por impulso para tentar esquecer aquilo que nos machuca por dentro&#8230; Mas você precisa entender, querido, que há pessoas que se preocupam com você&#8230; e apesar de não ser uma relação perfeita como todos gostariam, essas pessoas não deixam de gostar de você. Não é justo que você as machuque com suas atitudes&#8230; e nem que você se machuque com tudo isso. Você entendeu, querido?</p>
<p style="text-align: justify;">Erick não queria, mas entendeu o que Sueli estava dizendo. <em>Se machucar</em> era exatamente o que ele vinha fazendo há meses, muito antes de sair da casa de seu padrasto. Levantou a cabeça para encará-la novamente, para ter certeza de que tinha sido ela quem dissera tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu me sinto um erro&#8230; tudo parece errado, como se não encaixasse. – por fim desabafou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso vai levar tempo para passar, querido. Mas não quer dizer que não possamos tentar. Não vai ser nenhum crime se você for feliz aqui conosco, não estará traindo ninguém&#8230; nem Gregory, nem sua mãe&#8230; de fato, certamente ao saberem de sua felicidade, eles ficariam felizes também.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu tento&#8230; – Erick afastou o cabelo dos olhos. – Mas não estou em clima de festas, nem de viagens, nem de comemorar nada. E durante todo esse tempo, eu tô tentando&#8230; o tempo todo&#8230; e ninguém quis saber o que eu achava, onde eu queria estar, o que eu queria fazer&#8230; todo mundo tem algo pra dizer, algo que acha que vai ser melhor pra mim&#8230; por que ninguém me pergunta o que <em>eu</em> acho?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah querido. – Sueli o abraçou. Foi um abraço de mãe, com braços confortáveis e seguros. – Isso é porque estão tentando proteger e ajudar você! É por isso que você precisa dar tempo ao tempo, querido, para as coisas se acertarem. Sei que desde que você se mudou, você e Márcio não estão se entendendo&#8230; mas coloque-se no lugar dele também, ele se sente frustrado porque quer ser um bom pai e não consegue.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu só quero ir pra minha casa&#8230; mas agora nem sei mais onde é que ela fica&#8230; – Erick confessou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ela fica aqui conosco, benzinho. E também fica com Gregory. Basta nos dizer que quer ir, ninguém vai te obrigar a ficar. Você pode visitá-lo sempre que quiser.</p>
<p style="text-align: justify;">– Pra que? – Erick afastou-se de Sueli e secou os olhos com a manga da camiseta, para que não começasse a chorar. Doía ter que morar com um pai que durante dezesseis anos não o queria, mas doía bem mais o fato de que seu padrasto, o homem que ele considerava um pai, não o queria mais. E eles tinham razão em não querê-lo, ele bem sabia. – Não estou falando com ele.</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso é algo que você não devia fazer Erick. Eu sei que ele tem tentado falar com você. Por que você não o atende?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não tenho nada pra falar pra ele&#8230; nem pra ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nem pra mim? – Sueli deu um sorriso brincalhão, que arrancou um sorriso de Erick. – Você pode sempre falar o que quiser para mim, Erick, farei o possível para ajudar, está bem?</p>
<p style="text-align: justify;">– Está bem.</p>
<p style="text-align: justify;">– E tente não tomar atitudes irresponsáveis. Tome cuidado&#8230; faz pouco tempo, mas já sentiríamos a sua falta em casa. Quem ia fazer barulho o dia inteiro? André é um fracasso nisso!</p>
<p style="text-align: justify;">– É, ele é&#8230; – Erick riu simulando que estava tudo bem, mas só queria que ela fosse logo embora dali. – Obrigado, Sueli.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não há de que, agora se arrume para irmos jantar. Seu pai vai ficar feliz de ver você. Tome um banho, vista-se e encontre conosco no restaurante. – ela o beijou na testa e levantou-se. – Ok?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ok.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick esperou Sueli sair e assim que a mulher fechou a porta foi tomar banho. Adentrou o banheiro e acendeu a luz. Encarou-se no espelho e viu o fracasso que era, só de olhar qualquer pai veria o que realmente era: um irresponsável mimado.</p>
<p style="text-align: justify;">E não achava que seria capaz de fazer o que Sueli havia pedido: ser um bom garoto, comportar-se e mais, tentar ser um bom filho. Aliás, não sabia nem o que isso queria dizer, porque se queria dizer que era pra ser igual André, preferia morrer!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sou um imbecil! – decretou.</p>
<p style="text-align: justify;">Entrou no chuveiro.</p>
<p style="text-align: justify;"> ■□■□■□■</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado do Hotel, André estava sentado em um quiosque de jogos, onde no centro havia uma mesa de <em>pebolim</em>. Joyce estava sentada no parapeito do quiosque olhando a noite cair rapidamente enquanto sentia o esfriar da brisa em seu corpo. Ela usava calça jeans e um moletom cor de rosa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Estou com frio. – ela falou para André, esperando que ele largasse o brinquedo que ficava brincando sozinho como um idiota.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vai pôr uma blusa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Já coloquei e continuo com frio. – respondeu. O imbecil nem tinha reparado em sua roupa, revoltante!</p>
<p style="text-align: justify;">– Então sei lá! Pega um cobertor no quarto, não tá vendo que eu tô jogando? – André impacientou-se. – Quer jogar um pouco? Vai te esquentar, certeza.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não quero jogar, queria que você sentasse aqui comigo e me esquentasse! Podíamos ver o pôr do Sol juntos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Agora não, Joyce.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo, então eu vou pegar um cobertor mesmo. – Joyce desceu do parapeito do quiosque de forma energética.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda esperou que André largasse o brinquedo e como um príncipe, impedisse-a de ir, tomando-a em seus braços e beijando-lhe. Mas André continuou lá, brincando sozinho em um brinquedo que era para jogar de dupla! Que sapo!</p>
<p style="text-align: justify;">À Joyce não sobrou mais nada, além do aborrecimento. Saiu do quiosque e foi em direção dos corredores onde ficavam quartos do hotel atrás de um cobertor para se cobrir. Pisou forte no chão, tentando permanecer dura e segura de si, porém, no meio do corredor, estava com os olhos cheios de lágrimas e com a boca cerrada procurando segurar o choro que explodia dentro do peito. Que mico! Chorar assim no meio do hotel com todo mundo passando por ela! Pior ainda era pensar que André não era homem suficiente para falar o que estava acontecendo! Ela estava frustrada, tentando arrancar um pouco de carinho de uma múmia fedorenta!</p>
<p style="text-align: justify;">André só podia ser uma múmia morta, porque não reagia a nada! Se dependesse dele, ela morreria de frio e de falta de carinho! Por que ele não era um pouco mais atencioso, como Erick o fora no carro, emprestando o casaco? Maldito André, que não era nem metade do namorado que ela gostaria que ele fosse&#8230; e justo agora, que ela estava pronta, droga! Ela estava pronta!</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce parou de andar sentindo-se fraca e sem rumo. Cobriu a face com as duas mãos entregando-se ao choro que teimava em sair, envergonhada por estar ali tão abandonada no corredor.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei, Joyce? Tudo bem? – a garota afastou as mãos do rosto para encarar Erick que cruzara com ela no corredor. Estava com os cabelos molhados, de calça jeans e camiseta de uma banda, de mangas compridas. – O que foi que houve?</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce o abraçou buscando o conforto que precisava.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não aguento mais&#8230;! – e soluçou em prantos, afundando a cabeça no ombro de Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">O coração de Erick bateu mais forte com o susto, ou com o fato de que a menina o tinha abraçado tão forte e tão desesperada. Respirou fundo e a confortou:</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sei exatamente como você se sente. – E sabia mesmo. Havia dito as mesmas coisas que ela horas antes para Márcio. – Vamos, não fica chorando aqui no meio do corredor, vai&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce permitiu que Erick a guiasse. Ele andou segurando seus ombros em um abraço carinhoso, mesmo que suas mãos estivessem frias do ar condicionado do quarto. Joyce estava com o rosto vermelho enfiado no ombro de Erick, chorando, com as duas mãos tentando inutilmente secar as lágrimas que jorravam de seus olhos escuros.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele parou na frente do quarto, ela o viu tirar chave de número 533 do bolso e abrir a porta. Estava gelado ali dentro o que fez os pelos de seu braço se arrepiarem. Ele acendeu a luz, entrou com a garota para dentro e assim que fechou a porta, a soltou parada na entrada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vai lavar o rosto. – ele estendeu para ela uma toalha limpa.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era uma ordem, mas diante daquilo ela não teve reação senão concordar. Sem dizer nada, pegou a toalha branca e fofinha, entrando no banheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O espelho estava embaçado do banho quente recém tomado por Erick, ela encarou seu reflexo borrado: uma princesa em decadência. Os olhos vermelhos, o nariz rosado, as lágrimas amargas. Um fracasso.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sou uma imbecil. – falou pra si mesma. Abriu a torneira gelada e lavou-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Secou o rosto com cuidado, largando a toalha por cima da pia de mármore cinzento. Olhou-se de novo no espelho sentindo-se um pouco melhor, mas envergonhada por ser tão fraca e chorona. Saiu do banheiro e procurou pelo amigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick estava na varanda do hotel certamente esperando por ela, debruçado no parapeito, com as costas curvadas e o olhar perdido nas montanhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce andou até ele.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que vista linda. – comentou. O sol se escondia por dentro das montanhas, alaranjado e azul escuro.</p>
<p style="text-align: justify;">– É. – ele respondeu. Virou-se para ela. – Tá melhor?</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, desculpe pela cena&#8230; me sinto ridícula.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tamos empatados eu acho. – ele se referia à cena que fizera pela tarde, quando chegaram.</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que sim. – Joyce riu brevemente, quebrando a esquisitice da situação. – Eu não sabia que estava tão ruim assim pra você, Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nem eu pra você.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu também não sabia. – Joyce confessou, sentindo as lágrimas voltarem a encher os olhos, um ardor irritante. Ela não queria mais chorar, não por André! Olhou para as montanhas silenciosas, fugindo do contato visual com Erick, envergonhada por ele a ver daquele jeito.</p>
<p style="text-align: justify;">– É, eu também não sabia. – Erick suspirou exalando todo o ar dos pulmões, como um lutador derrotado em batalha que se vê exausto.</p>
<p style="text-align: justify;">As palavras sempre sinceras de Erick surtiram um efeito de conforto em Joyce. Como se estivesse tudo bem sentir o peso do fracasso, proclamar derrota&#8230; não era assim tão ruim descobrir que havia perdido&#8230; ao menos ali naquela varanda, não parecia ser tão ruim, a vergonha de ser uma fracassada se extinguiu, estava tudo bem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick&#8230; – Joyce olhou para ele, chamando-o. Ele virou-se para ela de novo. – Seja sincero. Você me acha bonita?</p>
<p style="text-align: justify;">– Quem não acha Joyce? – ele estranhou aquela pergunta, especialmente porque achava que ela sabia disso.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu digo bonita de verdade&#8230; gostosa e tudo mais. Desejada.</p>
<p style="text-align: justify;">– A resposta é a mesma. – ele revirou os olhos, focando-os na montanha de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu acho que o André não acha&#8230; – ela encolheu os ombros.</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso porque ele é um otário. – Erick suspirou aborrecido, mas logo depois ele riu e virou-se para ela. – Largue de besteira. Não é porque ele é um otário com você que você precisa ficar desse jeito duvidando de quem você é! Ele nem merece tudo isso&#8230; é um babaca.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não fala assim, Erick. O André é meu namorado, eu gosto dele, quero que ele goste de mim! Sou uma garota, só isso.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tudo bem, desculpe, estava tentando te animar. Só falei o que eu acho!</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que você não gosta do André?</p>
<p style="text-align: justify;">– Quem disse que eu não gosto?</p>
<p style="text-align: justify;">– O jeito que você fala dele!</p>
<p style="text-align: justify;">– Não é isso&#8230; só não gosto das atitudes dele! Além do mais, se vamos ser irmãos como querem que a gente seja&#8230; alguém tem que ser o irmão pentelho!</p>
<p style="text-align: justify;">– É! Você é bem pentelho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu tava falando dele!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah! – Joyce riu. Depois ficou um minuto de silêncio, hesitando. Tomou coragem. – O André não gosta de mim, não é?</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso é complicado.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que você acha?</p>
<p style="text-align: justify;">– Quer com sinceridade? – Erick suspirou com pesar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quero. – mas depois pensou bem. – Não&#8230; quer dizer, não sei.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se você quer com sinceridade, tem que estar preparada pra qualquer resposta, Joyce.</p>
<p style="text-align: justify;">– Estou me enganando, não é? No fundo eu já sei essa resposta&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo, deixa esse papo pra lá. – Erick mudou de assunto antes que ela começasse a chorar de novo. – Tá com fome? – e foi entrando no quarto.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce o segurou no braço, não deixando que ele saísse da varanda.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick! Responde com sinceridade. O André não gosta de mim, não é?</p>
<p style="text-align: justify;">Ele a olhou com seriedade, olho no olho. Joyce queria uma resposta com certo desespero estampado em seus olhos. Ele pensou um pouco, escolhendo que palavras iria usar, e por fim soltou:</p>
<p style="text-align: justify;">– Não sou eu quem tem que te responder isso, Joyce. É o André.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo. – Joyce o soltou, visivelmente chateada com a resposta, fazendo biquinho. – Não estou com fome.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nem eu! – ele sorriu genuinamente quebrando o momento de aborrecimento. – O que é bom! Não precisamos ir até o restaurante e dessa forma você não precisa olhar pra cara de otário do André e nem eu!</p>
<p style="text-align: justify;">– Do André e do Tio Márcio. – ela completou o que ele realmente queria dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bingo! – Erick riu e entrou no quarto, indo até o Frigobar. Joyce ficou na porta da varanda esperando-o.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick abiu o frigobar e contemplou o que havia dentro: Latinhas de refrigerante, de cerveja e duas garrafas de vinho, no meio das outras de água. Torceu o nariz, credo que hotel mais sem classe para servir vinho fora de uma adega! Teve uma ideia nada genial, mas era a única que passou por sua cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quer arriscar e tomar um vinho?</p>
<p style="text-align: justify;">– Arriscar? Como assim? – Joyce perguntou colocando parte do corpo para dentro do quarto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Amanhã no check-out vai aparecer na fatura que tomei vinho e eu estarei encrencado. Talvez até fique de castigo de novo!</p>
<p style="text-align: justify;">– E você se encrencaria por mim? – Joyce perguntou surpresa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele olhou rapidamente para ela por cima do ombro, com um sorriso maroto de quem está se divertindo em aprontar uma.</p>
<p style="text-align: justify;">– Hoje sim. – riu e tirou a garrafa do frigobar. Erick se encrencaria sozinho sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">– Soa até romântico.</p>
<p style="text-align: justify;">– Com direito a amendoim. – e pegou um pacotinho de amendoim que tinha em cima do frigobar em uma cesta, jogando-o para Joyce, que o pegou no ar. Abriu o vinho e foi sentar-se com ela na varanda. – E pôr do sol.</p>
<p style="text-align: justify;">– Perfeito. – Joyce antes de tudo lembrou-se de pegar o cobertor para se cobrir.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentou-se ao lado dele, que estendeu a garrafa para ela. Joyce deu o primeiro gole enquanto Erick ajeitava o cobertor de forma que cobrisse as costas de ambos.</p>
<p style="text-align: justify;">– A ultima vez que eu bebi, não deu muito certo. Passei mal. – Joyce lembrou-se secando a boca com as costas da mão, sentiu o líquido esquentar sua garganta e seus ombros. Foi confortável.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu também&#8230; – Erick confessou. – Ainda me sinto com ressaca de ontem&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah é! Onde é que o senhor estava ontem?! Deu tudo certo com a Sofia?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não. – ele informou com seriedade. – Acho que tivemos nossa primeira briga ou algo do tipo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como assim, Erick? “Nossa”? – Joyce assustou-se. – Vocês tão namorando?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, tamos aí, meio que ficando. Sei lá agora. Nunca fui bom dessas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você leva mais foras ou dá mais foras?</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que levo mais. Você definitivamente não leva.</p>
<p style="text-align: justify;">– Do André eu bem que levo&#8230; – Joyce riu, tomando mais vinho. – Sabe que para começarmos a namorar eu tive que praticamente me atirar em cima dele?</p>
<p style="text-align: justify;">– Que mau negócio que você fez. Antes tivesse se jogado em cima do Renato!</p>
<p style="text-align: justify;">– O Renato pode ter toda garota que quiser.</p>
<p style="text-align: justify;">– Exceto você.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não é bem assim&#8230; e você está fugindo do tema principal da conversa, que é: onde é que o senhor estava ontem a noite? Tava numa ressaca impossível hoje cedo.</p>
<p style="text-align: justify;">– É&#8230; não fui pra lugar nenhum. Quer dizer, depois que fomos à lanchonete com a Sofia e os amigos esquisitos dela, motivo pelo qual até brigamos, deixei a Guta em casa e parei na padaria da esquina mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ficou bebendo sozinho por lá?</p>
<p style="text-align: justify;">– É.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que deprimente.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick deu de ombros.</p>
<p style="text-align: justify;">– Deprimente é a gente aqui, falando dessas coisas chatas.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce riu. Era um comentário pertinente.</p>
<p style="text-align: justify;">– Então você e a Sofia tão sérios?</p>
<p style="text-align: justify;">– O que é “estar sério”?</p>
<p style="text-align: justify;">– Se gostando, compromissados, a fim de irem adiante.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu tenho dezesseis anos, o único adiante que conheço é namoro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Suficiente, se houver fidelidade e você não sair por aí zoando com outras meninas e nem ela&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo. – Erick não quis responder. O que ia dizer? André não estava sério com Joyce, mas fazia toda pinta de que estava. Isso era mais uma etiqueta de zona de conforto, nada mais. E que diferença fazia quando ele não conseguia saber o que sentia por dentro?</p>
<p style="text-align: justify;">– Está ou não está? – a menina insistiu encurralando-o com a conversa, os olhos fixados nele tinham até um peso de curiosidade.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sei lá, Joyce&#8230; A Sofia veio com um lance todo de “temos que ser sinceros um com o outro” e tudo mais.</p>
<p style="text-align: justify;">– E você foi sincero?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu fui! Além do que devia ser. Mas ela não.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como você sabe que ela não foi sincera com você, Erick? Que coisa feia, acusar uma pessoa assim! – Joyce como sempre, defendendo as amigas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, é algo que eu sinto. Quer dizer, tenho certeza. A gente tem essas certezas às vezes dentro da gente, você sabe!</p>
<p style="text-align: justify;">– É, a gente tem. – Joyce admitiu.  – Mas você gosta dela?</p>
<p style="text-align: justify;">– Tem sido legal&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Então está tudo bem, né!</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que sim&#8230; Mas agora que você já sabe onde eu estava ontem, vamos continuar falando do Renato.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que você quer falar do Renato?</p>
<p style="text-align: justify;">– Que é isso, Joyce, tá na cara que ele gosta de você.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo, e meu nome é Paula!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ok, Paula!</p>
<p style="text-align: justify;">Ficaram em silêncio um momento, Erick bebeu mais vinho porque não sabia mais o que falar. Os olhos castanhos e inocentes dela em cima dele. Ele sentiu o coração acelerar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você acha? – Joyce indagou perplexa. A noite já caía, escurecendo tudo, mas nenhum deles acendeu a luz da varanda.</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho. Sabe como é, todo mundo tem segredos.</p>
<p style="text-align: justify;">– É, acho que todo mundo tem segredos, sim!</p>
<p style="text-align: justify;">– E o seu segredo, qual é?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sou virgem. – Joyce falou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, tá brincando&#8230; só tem virgem nesse mundo. – Erick lembrou-se que quando Guta e André disseram que tinham um segredo, o segredo foi o mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">– E o seu, qual é?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não é ser virgem. – debochou. – Eu bebo bastante, mas isso logo passa a não ser segredo pra ninguém. Se é que você me entende.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo, um alcoólatra e uma virgem sem graça. – Joyce debochou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você pode resolver o seu segredo. É só transar com o André.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você também, é só parar de beber.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu nem quero. – ele enfatizou que não ia parar dando um largo gole no vinho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu quero. – Joyce confessou. Isso lembrou que André não a queria. – Mas o André não quer.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que otário. – Erick revirou os olhos. – Por que ele não ia querer transar com uma garota bonita como você? – Mas ele se arrependeu de ter dito, ele sabia a resposta: Guta.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não me sinto bonita. Na maioria das vezes acho que sou desajeitada, sou magrela e minhas pernas são compridas demais. Minha boca é muito grande, meu cabelo tá sempre estático&#8230; acho que por isso ninguém deve gostar de mim de verdade!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, não, para, Joyce&#8230; você é linda. Sem dúvida é a menina mais linda que eu já vi.</p>
<p style="text-align: justify;">– De que adianta? O André não acha nada disso!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele é cego, ou então possui claros problemas de interpretação cerebral. – Erick ficou de pé e entrou no quarto procurando sua mochila.</p>
<p style="text-align: justify;">– Muito gentil da sua parte, mas não precisa ofender o André. – ela teve que responder mais alto para ele ouvir de dentro do quarto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tudo bem, a partir de agora ofenderei você, por ser burra e sonsa. E por estar chateada porque seu namorado não te dá o valor que você merece e, principalmente, por não fazer nada a respeito!</p>
<p style="text-align: justify;">– E o que eu posso fazer a respeito? Posso saber? – ela se inclinou para procura-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Muitas coisas. – Erick voltou para a varanda com a máquina fotográfica nas mãos. Bateu uma foto de Joyce, na surpresa e sentou-se do lado dela, virando o visor. – Você é linda, não tem nem o que dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce cobriu os ombros dele com o cobertor de novo e encarou o visor para fitar sua foto surpresa. Viu uma garota de pele branca e cabelos escuros e lisos, emburrada. Tudo o que viu, foi que de perfil seu nariz era maior do que parecia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa! Eu sou nariguda!</p>
<p style="text-align: justify;">– Para com isso Joyce, que crise boba&#8230; quer uma prova que você é bonita?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah e você pode provar?</p>
<p style="text-align: justify;">– Claro que eu posso! Quer? – ele desafiou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ok, quero.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá bem, eu vou tirar dez fotos. Se em uma você ficar feia, ou estranha&#8230; eu deixo você se achar feia. Mas nada de falsa modéstia, combinado?</p>
<p style="text-align: justify;">– Combinado!</p>
<p style="text-align: justify;">– Então fique de pé! – e dito isso, ele ficou em pé primeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce o seguiu, ficando em pé também. O cobertor caiu no chão, ela sentiu frio de novo, mas pela excitação do momento, não se importou. Ela achava que Erick era divertido pois sempre instigava uma curiosidade diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que eu tenho que fazer?</p>
<p style="text-align: justify;">– Só olha pra lá pro horizonte e dá um gole de vinho, o maior gole que você acha que consegue.</p>
<p style="text-align: justify;">– O maior?</p>
<p style="text-align: justify;">– O maior.</p>
<p style="text-align: justify;">– E se eu não conseguir beber?</p>
<p style="text-align: justify;">– Faz logo!</p>
<p style="text-align: justify;">Sem entender exatamente onde queria chegar, mas movida pela vaidade de se ver através do olhar dele, Joyce se posicionou. E assim o fez: levou a garrafa esverdeada na boca e deu o maior gole que achou que conseguiria dar. É claro que não conseguiu, derrubou vinho pelos cantos da boca e secou com as costas da mão, enquanto dava uma risada sonsa e sem graça para Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">– Oops, foi mal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Foi nada, ficou ótimo. – ele estendeu a máquina para ela, trocando pelo vinho que ela segurava.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce passou as fotos no visor, era uma sequência de fotos da sua babada fenomenal. Deu risada, porque ficou engraçado, ou porque o vinho que bebeu fez efeito quando ela ficou em pé.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, você tá vendo errado! – Erick se intrometeu soltou a garrafa no chão, aproximando-se para ensiná-la a ver as fotos. – Primeiro que você não pode passar a sequência, porque cada foto é uma foto e tem sua beleza em particular.</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tipo essa. – era uma foto de Joyce segurando a garrafa na boca e fazendo bico, para beber. – Se você achava sua boca horrível, pare agora, você é sensual, Joyce. Se eu mostrar essa foto por aí, vai ter fulano imaginando coisas mais picantes do que uma garrafa.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce encarou aquela foto por um tempo. A foto estava escura e a sombra torneava seu rosto, desenhando-o. Os cabelos jogados para trás davam um ar despojado.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você é um desses fulanos?</p>
<p style="text-align: justify;">– Com uma foto dessas? Certamente! – Na verdade, não precisava de foto, tudo em Joyce era bonito e sensual, como se ela fosse uma obra prima, um retrato da perfeição.</p>
<p style="text-align: justify;">– Obrigada, mas você só tá sendo gentil. Não é como se você desejasse me beijar de verdade. – decretou nada convencida, cruzando os braços, aborrecida.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você não pode afirmar isso.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por quê? Quer me beijar? – Joyce indagou ainda aborrecida.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick suspirou e ficou em pé fugindo do assunto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quer mais vinho?</p>
<p style="text-align: justify;">– Tem mais vinho?</p>
<p style="text-align: justify;">– Tem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quero&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Quando entrou no quarto, soltou a câmera em cima da cama e suspirou derrotado sem compreender o que havia feito de errado para que Joyce ficasse emburrada. Isso o deixou um pouco triste, até porque, ele tinha que admitir ao menos para si mesmo que estava com vontade de beijar Joyce desde a festa de Joaquim, aliás, desde que a viu no aniversário de André! E isso o aborreceu, afinal, a menina era namorada de André&#8230; o babaca que ainda por cima não dava valor ao que tinha e a fazia chorar!</p>
<p style="text-align: justify;">Tentando afastar Joyce de seus pensamentos, Erick andou até o frigobar e retirou a segunda garrafa de lá, colocando-a em cima da bancada. Procurou pelo saca-rolha. Será que estava na varanda? Virou-se em direção à varanda. Encontrou com os olhos castanhos de Joyce fixos nele, ela em pé, perto da porta esperando-o. Sentiu novamente aquela batida faltar no coração, como se os olhos de Joyce fossem capazes de o hipnotizarem. Talvez fossem.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce prendeu a respiração como quem toma fôlego para mergulhar em uma piscina, andou até Erick rapidamente atravessando o quarto e o segurou pelo rosto, beijando sua boca sem dar-lhe tempo de reação.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick retribuiu o beijo abraçando-a com força, as mãos percorrendo as costas da menina. Era um beijo forte, com a respiração acelerada, inesperado, porém desejado, cheio de piercings e dentes&#8230;  mas não demorou muito, eles logo se afastaram como quem não acreditam no que estão fazendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce o encarou com os olhos escuros e arregalados. Cobriu a boca com as duas mãos, perplexa. Erick desviou o olhar, coçou a cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Desculpe. – Joyce falou primeiro. – Eu não sei por que fiz isso&#8230; eu&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, eu que peço desculpas&#8230; – Erick ergueu os olhos para Joyce, que segurava os lábios vermelhos, com ar perplexo, travada. Ele ainda sentia sua boca dormente pelo beijo enfurecido que trocou com a garota, só tinha uma coisa na sua cabeça. Ele queria beijá-la de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Erick a puxou de novo em sua direção, abraçando-a e beijando-a mais uma vez. Joyce retribuiu. O beijo veio mais uma vez forte, cheio de desejos. Eles se abraçaram com força, em um grande amasso, como se aquela vontade de beijar um ao outro estivesse reprimida. E estava.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Baixe  o PDF</strong></p>
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<p style="text-align: justify;">(25 Páginas)</p>
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		<title>†  Introdução &#8211; O Sebo da Esquina</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 21:19:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Escrito em Linhas Tortas]]></category>
		<category><![CDATA[Demônios]]></category>
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		<description><![CDATA[Existem vários tipos de encruzilhadas, algumas em “Y”, algumas em “T” e outras em “K”. Não importa, com o ritual correto o destino é sempre o mesmo: O Sebo da Esquina.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/tea.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1304 aligncenter" title="tea" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/tea-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Eles dizem que os demônios vivem na encruzilhada, mas o que eles não sabem é que existem vários tipos de encruzilhadas, algumas em “Y”, algumas em “T” e outras em “K”. Não importa, com o ritual correto o destino é sempre o mesmo: O Sebo da Esquina.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Ele tem uma porta pequena, em estilo marroquino, a madeira pintada de verde claro envelhecido. Na fechadura cabe apenas uma chave e está sempre trancada, porém o cheiro de sândalo escapa pelas frestas, convidando a um local mágico.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Em cima da porta um letreiro velho e vermelho ilumina o nome do local, simplesmente “Sebo da Esquina”, sem a menor pompa. É um local que não oferece medo a primeira vista, mas ninguém se atreveria a entrar sem possuir um convite.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Ele possuía. O garoto com a chave barroca de bronze nas mãos. Respirou fundo, girou a chave duas vezes na fechadura e destrancou a porta. Um pequeno sino anunciou sua chegada no momento em que ele abriu a porta. Plim.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">O interior do sebo não tinha livros, não era nem um sebo! Ali dentro havia uma aconchegante sala de estar. As paredes eram cobertas de papel de parede floral e havia um espelho oval com moldura dourada na parede. Os lustres pendurados no teto eram castiçais dourados com velas acesas tremeluzindo. No meio de tudo, um tapete felpudo branco jogado por cima do assoalho de madeira escura. Um sofá de estofado bordô de dois lugares com almofadas verdes com franjas douradas, estava simetricamente disposto com duas poltronas combinando. Na mesa de centro, com pés de arabescos, um candelabro segurava uma vela branca. Uma xícara de chá estava descansando ao lado do candelabro feita de porcelana verde com as bordas douradas,  o cheiro de ervas do chá infestava o local misturando com o cheiro do sândalo já intimamente impregnado à sala.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Ela estava lá, dizia se chamar Madame Daisy, mas seu verdadeiro nome era outro, que pertencera uma vez a uma deusa mitológica e outra vez à uma poderosa demônio. Qualquer um que a olhasse entretanto, duvidiaria disso. Ela aparentava ser uma jovem asiática beirando os vinte anos, de cabelos curtos, olhos negros que brilhavam com um vermelho sobrenatural e sua pele era tão pálida quanto a de um defunto, mas era muito bonita. Usava um vestido verde escuro que possuía um quê de vitoriano, grudado ao corpo magro e curvilíneo, em seus braços finos, muitas pulseiras douradas. Parecia uma cigana perdida em uma época antiga.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Ao ver o jovem entrar Madame Daisy não pareceu surpresa, pois já o esperava. Seus olhos sobrenaturais fixos no garoto, suas delicadas mãos repousadas no colo. O gato preto que estava em seu colo porém pulou dali assim que a porta abriu e foi roçar-se aos pés do visitante.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Seja bem vindo, querido. &#8211; Madame Daisy disse lançando um meio sorriso que não mostrava os dentes. O interior de sua boca era negro como a noite, um buraco vazio capaz de engolir almas. Sua voz, entrentanto, era suave e adocicada, sedutora.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">O garoto permaneceu ali em pé com os olhos azuis voltados para baixo, onde o gato preto estava, olhando de volta para ele. Não era um garoto alto para sua idade, era magrinho e estava com o uniforme da escola: calça preta, camisa branca e gravata verde escura como o suéter. A jaqueta em estilo militar por cima do uniforme e os coturnos em seus pés denunciavam seu estilo. Seus cabelos eram escuros, quase negros, sua pele alva e ele tinha um rosto bonito e de formato oval.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Miau! &#8211; o gato fez para ele.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Como se acordasse de um transe, o garoto retirou rapidamente da bolsa carteiro que trazia transpassada ao corpo um livro pequeno como um desses blocos de notas, de capa vermelha com detalhes dourados. Estendeu na direção da mulher, sem se aproximar ou ousar erguer os olhos contornados de delineador preto para ela.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Eu não aceito devoluções, querido. Eu já informei isso a você. &#8211; Madame Daisy deu uma pequena risadinha, cobrindo a boca com a mão representando ser uma menininha tímida. &#8211; É um presente que te dei!</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Não posso continuar com isso. &#8211; ele soou em desespero e ergueu o olhar celeste para ela. &#8211; Eu tentei&#8230; mas nenhum bem sai do que escrevo!</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Tsc&#8230; &#8211; ela resmungou. Seu sorriso murchou e seu rosto tomou uma expressão preocupada. Estendeu a mão, as pulseiras fizeram barulho quando se agruparam no cotovelo. &#8211; Venha aqui, querido. Sente-se, tome um chá&#8230; e me conte o que aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Não quero chá! &#8211; o garoto recusou enérgicamente. &#8211; Eu quase matei alguém hoje&#8230; eu&#8230; eu tentei jogar esse livro fora, mas ele sempre volta pra mim e por isso eu vim aqui, devolver essa&#8230; essa coisa pra você! &#8211; ele jogou o livro no chão de forma malcriada.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">O livro se arrastou até os pés descalços de Madame Daisy, enquanto ela o acompanhou com o olhar. Em segundos, sumiu de seus pés. O rapaz abriu a bolsa de novo e tirou de lá o livro.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Não o quero! Fique com ele, por favor?</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Madame Daisy suspirou vencida, mas não se levantou. Ela pegou a xícara da mesinha e as pulseiras tornaram a fazer barulho quando ela se mexeu. Deu um gole em seu chá de ervas bem devagar, sorvendo só um pouquinho. Soltou a xícara no mesmo lugar de forma paciente, em movimentos minuciosos e olhou novamente para o garoto, que continuava com a mesma expressão em desespero.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Desculpe, querido. Não existe a possibilidade de me devolver, ele agora é seu. Eu te falei que dentro do livro mora um Jinn! Esse tipo de espírito quando capturado, não abandona sua alma, te servirá para sempre. &#8211; Madame Daisy falou calmamente. O garoto estava quase se desfazendo na sua frente, mas Madame Daisy não mudou de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Você disse que um Jinn é um espírito guardião, mas esse só traz coisas ruins!</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Eles são espíritos guardiões, mas como você, meu bem&#8230; eles possuem livre arbítrio.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Mas não o quero mais&#8230; eu estou cansado disso! Eu&#8230; não quero mais&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Você não precisa usá-lo se não quiser&#8230; é provável que ele se interesse por outra pessoa se você o ignorar, querido. &#8211; Madame Daisy deu de ombros de forma desinteressada.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- E ele irá com outra pessoa?</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Irá.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Oh. &#8211; pareceu obvio, mas o garoto não tinha sequer pensado nessa possibilidade. &#8211; Assim, simplesmente?</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Simplesmente. &#8211; Madame Daisy estendeu de novo a mão. &#8211; Vem aqui, querido, sente-se comigo e tome um chá. &#8211; o garoto hesitou e ela teve que insistir. &#8211; Venha, venha&#8230;. eu tenho um novo presente para você.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Por quê? &#8211; ele soou desconfiado de seus presentes.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Eu gosto de você.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Não gosta, não. Se gostasse não me daria um livro desses que só faz o mal!</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Por acaso o Jinn fez mal a você? Ele saiu do livro e te machucou? &#8211; perguntou com um meio sorriso, viu o garoto comprimir os ombros. &#8211; Não fez, não é mesmo? O que te fez mal foram as consequências daquilo que você desejou&#8230; se não está contente com os resultados então você tem que aprender a desejar direito.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- E você vai me ensinar a desejar direito?</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Já estou ensinando. Venha. Não quer saber qual presente vou te dar?</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Ele continuou parado por um momento, hesitante, decidindo o que faria. Por fim, guardou o livro dentro da bolsa e caminhou até Madame Daisy. Segurou em sua delicada mão gélida. Ela o fez sentar ao seu lado e deu dois tapinhas nas costas de sua mão. Conferiu que ele usava um anel em forma de um crânio de corvo, feito de prata que ela havia presenteado, para proteção.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Assim que o garoto sentou, o gato preto subiu em seu colo e se aninhou em suas roupas. O garoto não evitou lançar um sorriso ao felino e acariciar seus pelos macios. Era um sorriso genuino, bonito com dentes grandes.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Veja só, ele gosta de você! &#8211; Madame Daisy observou. &#8211; Por isso que vou dá-lo para você, assim você não vai se sentir tão sozinho&#8230; &#8211; ela segurou no queixo do garoto fazendo um carinho.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Eu queria&#8230; mas meu pai não vai me deixar entrar em casa com um gato. &#8211; ele informou e rapidamente tirou o gato de cima do seu colo.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Esse ele vai deixar. &#8211; Madame Daisy falou com convicção. &#8211; Você sabia que muito antigamente os gatos eram considerados sagrados?</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Eram? &#8211; abriu os olhos de forma vislumbrada, interessado na história.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Eles trazem sorte a quem os tem!</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Dizem que gato preto dá azar.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Não dá azar, mas é que eram comumente associados à maus espíritos&#8230; os gatos possuem forte ligação com o mundo daqueles que já se foram&#8230; e aqueles que já se foram e ainda vagam pela terra normalmente não são bons. &#8211; Explicou. &#8211; Vamos, escolha um nome para ele e será seu!</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">O garoto calou-se, pensou um pouco e por fim, falou:</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Lord Byron.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">- Lord Byron. &#8211; ela repetiu satisfeita porque ele aceitou seu presente. &#8211; Ele estará sempre com você, como eu também estarei, querido.</p>
<p style="text-align: justify;" dir="ltr">Eles dizem que os maus espíritos as vezes se atraem por humanos de sentimentos intensos em suas almas&#8230; mas o que eles não sabem é que alguns desses maus espíritos, ou demônios, desenvolvem um interesse tão forte quanto uma obsessão.</p>
<p style="text-align: right;" dir="ltr"><em><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></em></p>
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		<title>♠ 06 &#8211; Segredos</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 18:04:32 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Nina]]></category>
		<category><![CDATA[Aventura]]></category>
		<category><![CDATA[Lobisomem]]></category>
		<category><![CDATA[lobo]]></category>
		<category><![CDATA[Magos]]></category>
		<category><![CDATA[Romance Sobrenatural]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-thumbnail wp-image-1347 aligncenter" title="804411_11Namnl_st-1_large" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/804411_11Namnl_st-1_large-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma mão cheia de unhas segurou o ombro de Nina por cima de suas roupas vermelhas. Não era um toque grosseiro e nem ameaçador, era um toque gentil.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você comeu uma barra de sabonete? – Era Kurt, em sua forma homem-lobo. Nina nem percebeu a hora em que ele se aproximou. Ele era um furtivo lican de olhos rápidos e de tamanho médio, na selva ele seria um lobo ômega, mas no acampamento era o vigia e se ele estava por ali era porque estava acontecendo algo importante!</p>
<p style="text-align: justify;">– Tomei banho com um sabonete diferente. – ela explicou. Kurt sorriu com seu rosto peludo e as presas de fora. – O sabonete é de pitanga.</p>
<p style="text-align: justify;">– Hmm. – ele apenas resmungou, pouco impressionado com o cheiro forte do sabonete, para ele, aquele cheiro era apenas uma nuance altamente rastreável. – O que você quer por esse lado?</p>
<p style="text-align: justify;">– Viu o meu pai por aí?</p>
<p style="text-align: justify;">– Estamos todos muito ocupados por aqui e você devia estar na casa principal de olho no garoto mago. – Não era exatamente uma bronca, mas a observação tinha ar de &#8220;vá cuidar da sua vida&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Astuta, Nina percebeu que Kurt não queria falar no assunto. Realmente estava acontecendo algo importante durante a reunião na casa do líder e que além de serem secretivos a respeito, estavam todos muito ocupados.</p>
<p style="text-align: justify;">Como ela estava bloqueando a energia da alcateia, não podia se conectar com ele e por isso, não conseguiria descobrir o que estava acontecendo. Teve a nítida impressão que aqueles licans ali reunidos também estavam bloqueando qualquer um que tentasse se conectar aos assuntos que estavam sendo tratados.</p>
<p style="text-align: justify;">– Meu pai está em uma reunião do conselho? – Eram duas perguntas embutidas em uma e Kurt sabia disso. Se ele dissesse que sim, ele diria que estava mesmo acontecendo uma reunião secreta.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nina, fique fora disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de ser muito furtivo, Kurt era um lobo que não inspirava medo a ninguém, suas ameaças não eram nada ameaçadoras e por isso, Nina riu.</p>
<p style="text-align: justify;">– Então é mesmo uma reunião do conselho e meu pai está lá. – Não precisou se esforçar para descobrir. Ela também sabia que a reunião era sobre o ataque dos lobos vermelhos. – Por que esse segredo todo, Kurt? O que tem esses lobos vermelhos? Por que eles nos atacaram?</p>
<p style="text-align: justify;">– Nina. – Kurt a repreendeu, se ele deixasse algo escapar estaria encrencado. – Volte para a casa principal e assuma a sua missão de ficar por lá. Avisarei seu pai que você precisa falar com ele, se ele achar tempo na agenda dele, te procura. – e ainda segurando em seu ombro, ele a colocou de frente para o caminho que ela devia seguir para ir embora. – Vá, vá.</p>
<p style="text-align: justify;">– Obrigada. – Nina se afastou dali e retornou todo o caminho até as escadarias de cimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Tentou se conectar à alcateia para descobrir alguma coisa, mesmo desobedecendo as ordens de Noah. Tudo o que descobriu foi que logo após os ataques, o líder havia acionado o alerta e os licans que viviam no acampamento tinha toque de recolher. O líder também dobrou os vigias por turno e colocou os seus melhores lobos de guarda para proteger a casa principal.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora Nina só soubesse de um ataque realizado pelos lobos vermelhos, o senso comum da alcateia sempre colocava no plural, como se houvessem mais. Esses outros ataques (ou outro ataque, ela não tinha como saber), eram desconhecidos para todos os licans que não estavam reunidos na casa do líder naquela tarde e essa era uma ideia preocupante. O que havia para esconder?</p>
<p style="text-align: justify;">Os lobos vermelhos eram perigosos e ameaçadores, mas o que eles queriam?</p>
<p style="text-align: justify;">– Nina! – a voz de homem-lobo de Savana a chamou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina ergueu os olhos e encontrou com seus amigos, Savana, Maya, Sami, Aron e Kali. Maya estava em sua forma de menina, calça jeans e bota; Sami estava em sua forma homem-lobo, como Kali e Aron era um garoto com jeito de surfista usando apenas uma calça jeans, exibindo o seu tronco torneado.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles cercaram Nina. Cheiraram seus cabelos e suas roupas, tocaram seus dedos e braços com carinho; todos muito felizes de verem-na com saúde, já curada de seus ferimentos (devido não apenas à sua recuperação rápida de lican, como as poções mágicas que Syrce a fez beber). Ela os cheirou também, tocou em seus braços e trocou carícias amigáveis, roçando o queixo na cabeça de Maya e a mão no rosto de Aron. Savana cheirou seu braço. Nina adorava estar perto deles, pertencer ao bando, ser deles e eles serem dela. Até se esqueceu de que tinha sido recomendada a não se conectar a energia do Bando e nem trocar informações com a alcateia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você estava xeretando a reunião? Aquele mago folgado te mandou pra lá? – Aron pareceu preocupado, ao receber os pensamentos que navegaram com a energia de Nina. Sua voz saiu hesitante entre a revolta e a preocupação, ele não gostou de saber daquilo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aron era o filho do líder da alcateia e não negava sua prole: era forte, sua simples presença passava segurança como se ele fosse capaz de proteger a todos. Era maior que os lobos em geral e seu cheiro aclamava por respeito. Não era algo que dava para ignorar, seus instintos de lobo e o senso-comum do Bando caminhavam para esse lado: no futuro, Aron seria o líder. Não obstante, era apaixonado por Nina desde criança e estava esperando que ela esquecesse o que sentia pelo mago para ficarem juntos. Lobos podiam ser bastante pacientes com isso, licans nem tanto, mas Aron não falava disso com Nina, eles apenas sabiam porque nada era desconhecido para o Bando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quem foram os lobos que me morderam? – Nina perguntou olhando fixamente para os olhos azuis de Aron, penetrando na sua mente. Se tinha alguém entre seus amigos que poderia saber alguma coisa sobre isso, era Aron, o filho do líder.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não se sabe quem são os Lobos Vermelhos, Nina. – ele a respondeu com ar preocupado, pousando a mão em sua cabeça com delicadeza. – Ontem eles ultrapassaram os limites do nosso território e atacaram dois vigias, Turk  e  Ruki&#8230; e já teve Tori&#8230; você escapou por um milagre. – O território dos licans do acampamento se estendia pela cidade e até então nenhuma outra alcateia era localizada nos arredores ou em quilômetros deles. – São uma ameaça.</p>
<p style="text-align: justify;">– E o que eles querem?</p>
<p style="text-align: justify;">– Talvez queiram só nos atacar, conquistar nosso espaço. – Kali a respondeu com a típica voz rouca de um homem-lobo, seu rabo bateu no ar duas vezes, irritadiço com os ataques.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossos treinamentos foram dobrados e estamos proibidos de sair de noite. Não te avisaram? – Savana comentou. Ela especialmente estava muito empolgada com a nova rotina, era uma lican muito ativa e competitiva, totalmente ao contrário de Maya, que preferia gastar o seu tempo cuidando dos filhotes.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você vai treinar com a gente? – Sami perguntou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ela tem que ficar na casa principal. – Aron quem o respondeu, embora detestasse a ideia de que Nina estava agora mais próxima ainda do mago, entendia que a responsabilidade de Nina era grande, fora que era mais seguro por lá. Quem entrasse na mente de Aron naquele instante veria uma batalha interna entre o instinto protetor que tinha sobre Nina e de querer vê-la a salvo na casa principal <em>versus</em> o sentimento de posse que não queria deixá-la ficar lá por ciúme. – É mais seguro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Melhor para você ficar lá, comer as melhores comidas! – Maya falou enquanto segurava uma mecha dos cabelos loiros de Nina e os cheirava encantada com o cheiro do shampoo. Maya adorava comer, tanto que era mais redondinha que todos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quando serão os treinamentos? – Nina quis saber.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, você não vai participar. – Savana a respondeu, colocando as duas mãos de garra na cintura. – Você tem que ficar na casa principal e não sair de lá.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sou prisioneira deles agora?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, claro que não. – Sami quase riu achando graça do comentário. – Mas compreendo que você se sinta assim com aquele chato!</p>
<p style="text-align: justify;">Uma risadinha ecoou em todos eles.</p>
<p style="text-align: justify;">– Então porque não posso ficar aqui no acampamento e ir aos treinos?</p>
<p style="text-align: justify;">– Você tem uma responsabilidade a prezar. – Kali falou e deu dois tapinhas na cabeça de Nina como se ela fosse um filhote mal comportado. – E não se preocupe, você é a mais treinada de todos nós, lembra?</p>
<p style="text-align: justify;">Por assumir um posto de grande responsabilidade ainda filhote, Nina recebera treinamentos avançados desde antes de se transformar em humana pela primeira vez, mas Nina queria participar do treino com seus amigos mesmo assim, parecia que estava sendo deixada de lado em um momento daqueles! Por que eles estavam isolando-a tão longe do Bando? Não gostavam mais dela?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sei que você está se sentindo isolada, mas precisa confiar no jeito que as coisas são. – Aron sentenciou com toda a segurança que um lobo alfa possui, era daquelas palavras que ninguém duvidaria da razão ou pensaria em contrariar. Especialmente que o coração dele batia com a vontade de dizer a ela o quanto ele gostava dela, mas Aron não disse nada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá bem&#8230; – concordou, mas crispou os lábios. Queria ficar com eles e tirar sonecas de tarde sobre eles. Sentia falta deles!</p>
<p style="text-align: justify;">Eles escutaram um uivo. Era o chamado do toque de recolher, um dos vigias na torre mais alta que uivava o aviso de forma que fosse escutado por toda a propriedade dos Netjer.</p>
<p style="text-align: justify;">– Temos que ir. – Maya avisou e seus amigos logo a deixaram, descendo pelo caminho que dava acesso ao acampamento, todos muito apressados.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina suspirou, sentindo-se abandonada por eles.</p>
<p style="text-align: justify;">– Prometa que vai ter cuidado. – Aron pediu, antes de seguir os colegas. Abraçou-se com Nina e beijou seus cabelos em um carinho mais que fraternal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você também. – ela se despediu e subiu as escadas de cimento, atravessando o portão de madeira e voltando para a casa principal, ainda chateada de não poder estar com eles e de não ter visto seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Celsius Netjer nunca aparecia para jantar, ao menos era isso o que diziam todos os funcionários da casa principal. Naquela noite, porém, algo atraiu o homem para a mesa de jantar onde sua família estava e esse algo era Nina.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele era um homem que aparentava ser mais velho do que realmente era, tinha olhos castanhos e cabelos bem brancos, penteados para trás impecavelmente alinhados e óculos de aros redondos. Em seu rosto, um semblante sério, pensativo, de quem observava tudo e prestava atenção minuciosamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina sentiu-se muito sem graça por sentar na mesma mesa que eles como se fosse parte da família, uma exigência de Syrce que estava brincando de casinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Celsius não disse nenhuma palavra, comeu só pão e tomou muito vinho. Tinha as mãos finas, de dedos compridos. Nina reparou em todos os seus movimentos graciosos. Segurava o copo como se estivesse pronto para fazer um truque de mágica como aqueles mágicos de festa infantil, às vezes remexia na aliança de ouro que usava no anelar esquerdo. Quase nunca tocava em seus próprios cabelos ou suas roupas e não usava a boca para nada além de comer. Ficou calado o tempo todo, seu olhar passeando de Noah para Nina e de Nina para Syrce, por fim, retornava a olhar o filho ou o seu pão. Sua expressão nunca mudava, nada. Era indecifrável e desprovida de qualquer movimento que denunciasse um sentimento, como se estivesse sentado em uma mesa de pôquer blefando em uma aposta, analisando seus oponentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A sensação que Nina tinha com aquele olhar enigmático a deixava em uma posição de submissão tão grande, que ela mal levantava o olhar. Se estivesse em sua forma de lobo, Nina estaria ganindo e com o rabo entre as pernas. Era assustador. Havia em Celsius algo mais que o cheiro de mago, uma energia que o contornava e que repelia a tudo e todos.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma que ele ficou calado o jantar inteiro, todos ficaram. Syrce, inclusive, nem dirigiu um olhar para o marido. O silêncio na mesa era tão grande que era intimidador. Em comparação com sua casa, aquela situação era algo anormal demais. Entre seus familiares a união era imensa e eles costumavam comer até no mesmo prato, dividindo a comida como iguais, respeitando a porção do outro; conversavam e trocavam carinho durante as refeições.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquela mesa em que estava, Nina percebia que as pessoas eram como estranhos. Fechados em seus próprios mundos e pensamentos. Totalmente distantes, tão distantes que Nina achava até que não pareciam uma família. Chegava a ser até triste. Celsius não tinha perguntado à sua mulher como havia sido o seu dia, e nem sobre a saúde de seu filho (que aparentava debilitado mesmo que estivesse tomando as poções de cura). A recíproca era verdadeira, nenhum deles quis saber se Celsius estava bem ou saudável, se tinha terminado suas pesquisas, o que estava estudando&#8230; nada. Ninguém falava nada com ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem parecia que eles se amavam, talvez, não se amassem mesmo. Era triste.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina ficou com o coração apertado o tempo todo durante o jantar, só conseguia pensar como deveria ser horrível para Syrce ser casada com alguém assim.  Ou como não deveria ser triste para Noah ter um pai frio daquele jeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois da sopa, veio a salada e o prato principal do jantar. Quando a sobremesa, uma apetitosa torta de chocolate, foi servida, Celsius pigarreou e com apenas o arranhar da sua garganta fez todos olharem para ele curiosos e surpresos pela quebra do silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">– Estamos em crescente giboso, último dia. – anunciou como se fosse algo importante. Estava falando da fase da lua e isso significava que na próxima noite seria o primeiro dia de Lua cheia. – Faltam quinze dias para a Lua Nova. São as noites mais escuras.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém respondeu, ficaram apenas olhando para aquele homem que resolveu falar de repente. Ele balançou o copo de vinho, rodando o líquido dentro e engoliu todo o conteúdo de uma só vez, em um gole largo que ao erguer o pescoço revelou a barba mal feita.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao notar o silêncio na mesa, Celsius falou novamente, enquanto soltava o copo para enchê-lo com mais vinho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Devido aos últimos ataques&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Houveram mais de um? – Noah perguntou interrompendo seu pai de forma mal educada, mas Celsius não pareceu se importar. Resmungou alguma coisa e tomou um gole do vinho. Noah já sabia, porque Nina havia pesquisado na vila momentos antes. – Quantos?</p>
<p style="text-align: justify;">- Você já sabe quantos, enviou a Nina para xeretar por lá. Já fui informado. – Celsius passou a bronca. Nada passava despercebido pelo mago, ele controlava muito bem sua propriedade. – Mas não se preocupe, é só uma alcateia de nômades passando pela região que está estranhando os limites do território.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina sabia que era uma mentira não só pelo tom de voz como também por notar o maxilar endurecido de Celsius ao engolir seco. Era uma mentira e das grandes, ela prestou atenção em cada detalhe de seus movimentos. Havia também o agravante fato de que o ataque foi direcionado e não randômico, aqueles lobos que os atacaram certamente estavam os procurando. Nina se preocupou, se Celsius tinha um motivo para esconder algo assim, era importante.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se é só isso não tem porque nos preocuparmos. – Noah sentenciou enfiando um pedaço de torta na boca bem grande para enfatizar o desdém.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tem razão. Mesmo assim no seu estado atual é melhor que você se proteja mais, é por isso que Nina está aqui. – e sorriu para Nina, que sem graça, sorriu de volta.</p>
<p style="text-align: justify;">– Qual a diferença? – Noah perguntou de boca cheia. – Seria suicídio eles entrarem pelos limites da propriedade, se são nômades, vão apenas passar por perto e seguir viagem, certo?</p>
<p style="text-align: justify;">– É melhor você não ir para a escola amanhã. Que fique aqui dentro. Já perdeu muito sangue&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu me recupero bem rápido. E tem prova amanhã. – Era uma mentira descarada sobre a prova, Nina sabia, mas Celsius não tinha como descobrir. Noah estava apenas contrariando o pai como qualquer filho mimado faria.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tudo bem, se faz tanta questão. Eu vou dobrar sua guarda. Na Lua Nova, quero dizer. – Celsius encheu a boca de vinho em um gole irritadiço.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tanto faz. – Noah desistiu de comer a torta soltando o garfo e se calou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina percebeu que uma tensão se formou na mesa: Syrce comendo mais depressa a sua torta e ocupando a boca com suco na sequência para não precisar se manifestar. Noah revirou os olhos e Celsius fez a mesma coisa, acrescentando um suspiro e goles largos de vinho. O jantar terminou com aquele clima pesado.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O silêncio imperava ainda mais à noite. A casa principal parecia morta e nem mesmo o vento ousava sibilar. Nina estava estranhando sua nova cama, sem conseguir dormir. Seus ouvidos captavam o riscar do lápis de Noah em uma folha de papel com carbono.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela resolveu sair do quarto, pisando descalça no corredor vestindo uma camisola branca de algodão que cobria seu corpo todo, viu uma pequena luz amarelada que saía por uma fresta na porta de Noah e andou sem fazer nenhum barulho, aproximando-se furtivamente, porém quando chegou, bateu os dedos na porta de madeira três vezes anunciando que estava ali.</p>
<p style="text-align: justify;">Noah apareceu na porta logo na sequência, depois de arrastar a cadeira em que estava sentado e largar o lápis em cima das folhas.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que é?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não consigo dormir. Posso ficar aqui?</p>
<p style="text-align: justify;">– Você quer entrar de camisola no meu quarto? Não acha que isso pode ser um pouco perigoso para você?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não. Se você tentasse algo, eu saberia me defender&#8230; mas não preciso me preocupar, você não vai tentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele abriu a porta deixando Nina entrar e voltou para sua cadeira. O quarto era iluminado por um único abajur em cima da escrivaninha.</p>
<p style="text-align: justify;">– Estou ocupado, pra sua sorte.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que você está fazendo? – Nina fechou a porta e o cercou, por trás da cadeira. Olhou para a mesa, que estava cheia de papéis e símbolos rabiscados, pedaços de arame e algumas pedras, pedaços de carvão, espelho, frascos pequenos de vidro vazios e um copo com água.</p>
<p style="text-align: justify;">– Artefatos. – ele explicou, mas sem explicar. Mania que para Nina era irritante, sempre que garotos não queriam dizer as coisas, eles diziam pela metade. – Você pode ajudar se quiser, pegue uma cadeira e corte isso aqui do mesmo tamanho deste.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina se sentou ao lado dele, pegou o rolo de arame e começou a cortar com alicate em pedaços simétricos de vinte centímetros.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles trabalharam um momento sem falar nada, mas Nina se incomodava com o silêncio, ela preferia quando podia ouvir a voz de Noah e se ele estivesse falando com ela, era melhor ainda.</p>
<p style="text-align: justify;">– E para que servem esses artefatos?</p>
<p style="text-align: justify;">– Magia é uma coisa bem complicada para se fazer às pressas, costuma dar errado se você não tem a entoação correta de voz ao dizer as palavras ou se não tiver os materiais certos. – com um dos arames que Nina cortou ele rodeou uma pequena pedra redonda vermelha até cobrir por completo. – Estou me certificando de que vou ter os materiais corretos da próxima vez.</p>
<p style="text-align: justify;">– Próxima vez?</p>
<p style="text-align: justify;">– Que formos atacados.</p>
<p style="text-align: justify;">– E porque você acha que vamos ser atacados de novo? Ou que não vou conseguir te defender? – Nina ficou triste, parou de cortar os arames e virou-se para ele, a voz vacilando como se fosse uma criança que fez algo de muito errado e ouviu a bronca da mãe. – Desculpe, eu sei que você se machucou, eu devia ter pensado em outra coisa que não fosse correr para oeste e&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Não disse que você não vai conseguir me defender, só não quero que você faça isso sozinha. – falou seriamente, incomodado com o fato de ter que ser protegido por uma garota.</p>
<p style="text-align: justify;">– E o que faz você pensar que seremos atacados de novo?</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá brincando? Você tem visto como eles estão todos se comportando? Não são apenas nômades. E ande, corte.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sei. – Nina continuou cortando conforme a ordem que recebeu. – Estão chamando de Lobos Vermelhos, os treinos de todos os jovens foram dobrados&#8230; o Bando está em alerta&#8230; daqui eu posso sentir a estática que rodeia todos eles&#8230; e nem estou conectada.</p>
<p style="text-align: justify;">– É isso que me incomoda. – pegou outro pedaço de pedra e enrolou com mais um arame que Nina cortou. – É como se fosse algo sério demais, não consigo imaginar que nômades possam causar tudo isso&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– É a primeira vez que Licans rodeiam por aqui&#8230; eles podem atrair outros perigos. – ele a olhou com resignação e ela deu de ombros. – Temos que considerar todas as hipóteses.</p>
<p style="text-align: justify;">– A única hipótese que vou considerar é que eles atacaram para matar, eles quase me mataram! – soltou a pedra enrolada e pegou um pedaço de carvão, cortando com uma faca da cozinha em um pequeno pedacinho, enrolou de novo com arame.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que você acha que isso quer dizer?</p>
<p style="text-align: justify;">– Coisa boa não é. – e enrolou um frasco com água. Precisou usar dois arames para esse. Nina o olhava com admiração, extremamente encantada em como ele ficava mais sedutor ainda quando concentrado. – Mas sabe o que eu acho mais estranho?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eles serem vermelhos? – arriscou sem saber qual seria a resposta mais correta.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não&#8230; o que eu acho mais estranho é que eles não atacaram para matar você. – e colocou os quatro objetos enrolados no centro de um papel que estava desenhado um círculo cheio de linhas e cálculos como um mapa astral.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como não? Eu fiquei cheia de mordidas!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eles te machucaram, mas não foi com a intenção de matar. – ele ficou em pé, com as duas mãos sobre os objetos.</p>
<p style="text-align: justify;">– E o seu argumento é&#8230;?</p>
<p style="text-align: justify;">– Que não sou eu que eles estão tentando proteger. – o papel pegou fogo, um forte cheiro de lótus invadiu as narinas de Nina. Quando ele retirou as mãos dos artefatos, haviam transmutado para um anel fino e preto. O papel continuou intocado. – É você.</p>
<p style="text-align: justify;">– Claro que não. – Nina deu risada. – Quando a alcateia quer proteger alguém, a coloca no centro! Bem no centro.</p>
<p style="text-align: justify;">– A casa principal fica “bem no centro”.</p>
<p style="text-align: justify;">– E cerca essa pessoa com seus mais valiosos guerreiros.</p>
<p style="text-align: justify;">– E por acaso, quem você acha que são esses mais valiosos guerreiros?</p>
<p style="text-align: justify;">– Magos é que não são! Nós protegemos vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah é? Permita-me lembrar um pequeno detalhe, Nina. – ele foi até a janela do quarto e abriu as pesadas cortinas de pano em um movimento brusco. A vista dava para o moinho, mas antes dele, estavam as casas de janelas iluminadas dos Licans. – Somos nós que protegemos vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina deu risada, em alto e bom som. Teve que segurar a barriga porque o fato de rir tão alto dava mais vontade ainda de rir e forçava seu abdômem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que você está rindo?</p>
<p style="text-align: justify;">– Se você pudesse se escutar falando, saberia! – e continuou rindo. – “Eu o super mago vou salvar todo o mundo”! – ela tentou imitar um homem forte falando. Caiu na risada. – Você inventou essa fantasia toda sozinho?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não tem a menor graça. – Noah estava de braços cruzados, irritado, Nina teve que se esforçar para parar de rir e a expressão que ele estava fazendo de resignação era ainda muito mais hilária.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, por favor, não seja tão sensível. Você não acredita nisso realmente, acredita?</p>
<p style="text-align: justify;">– Que outra teoria você tem?</p>
<p style="text-align: justify;">– O seu pai tem muitos inimigos e se protege com a força dos licans. Mais provável que um desses inimigos esteja atacando com a mesma arma.</p>
<p style="text-align: justify;">– E o que sustenta essa sua teoria?</p>
<p style="text-align: justify;">– A alcateia é uma força impenetrável, mas uma outra alcateia é uma força por igual&#8230; seria uma chance de quebrar as defesas que o seu pai construiu.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se a sua teoria fosse correta, por que eles me matariam?</p>
<p style="text-align: justify;">– Quer castigo pior para um pai que enterrar o próprio filho? Com certeza a sua morte deixaria o seu pai tão abalado que ele provavelmente ruiria por dentro e morreria.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele não se importa tanto assim comigo, Nina.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, ele se importa muito mais do que você imagina! – ela ficou em pé e andou até a cortina indo fechar. – Por isso, veja se dê valor aos sentimentos dele e não se arrisque. Mantenha essa janela fechada, está bem?</p>
<p style="text-align: justify;">– Certo. – Noah voltou para a sua mesa de trabalho e continuou enrolando materiais com arames. – Você pode achar besteira, mas eu não acho.</p>
<p style="text-align: justify;">Nina percebeu que ele havia ficado muito irritado com suas gargalhadas e por não dar crédito à sua teoria, mas não podia evitar: só de pensar no assunto queria rir.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tinha como um Mago vencer um lican em uma batalha, ele já sabia, ele tinha enfrentado alguns e quase teve o pescoço arrancado. Ao mesmo tempo, saber que Noah não seria capaz de se defender quase a desesperou! Se aquele lican não já estivesse machucado, ele provavelmente teria mordido sua jugular e seria um ferimento fatal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sabe&#8230; eu posso te ensinar uns truques contra os licans, se você quiser. – sentou-se no pé da cama dele. Ele ficou em silêncio, o tenebroso silêncio que ela detestava. – Não vou ensinar a correr para oeste, prometo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Outro dia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que não vai domir?</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que não vai você?</p>
<p style="text-align: justify;">– Estou inquieta. Você vai cantar uma música para eu dormir?</p>
<p style="text-align: justify;">– Por acaso você é um bebê?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não consigo domir aqui, a casa faz barulho demais&#8230; sua voz me acalma.</p>
<p style="text-align: justify;">– Preciso me concentrar nisso, Nina. Não posso brincar com você agora. – deu uma bronca.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tá bem. – Nina se jogou de costas na cama. Suspirou chateada. Se ao menos não tivesse morrido de rir da mirabolante teoria dele, poderiam estar conversando ainda.</p>
<p style="text-align: justify;">– Califórnio, crômio, manganês, molibdênio carbono e vanádio&#8230; – ele descreveu o arame que estava usando e as porcentagens. – sobre hidrogênio, oxigênio e enxofre. – ele colocou o objeto pro lado. – Califórnio, crômio, manganês, molibdênio carbono e vanádio&#8230; sobre óxido de alumínio. – dois objetos – Califórnio, crômio, manganês, molibdênio carbono e vanádio, sobre ferro, magnésio, lítio, sódio e cálcio semicompostos em silicatos. – três objetos. – Reação exotérmica&#8230; – o cheiro de papel queimado invadiu o quarto, mas também liberou um perfume forte e aromático como lótus, era o cheiro da mágica. O segundo anel estava pronto. – Califórnio, crômio, manganês, molibdênio carbono e vanádio&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Nina adormeceu enquanto ele descrevia tudo o que fazia como se fosse uma chata aula de química, mas que aos seus ouvidos apaixonados, foi como a melhor música de ninar do mundo.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Baixe o PDF</strong></p>
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<p style="text-align: justify;">(20 páginas)</p>
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		<title>□■ 17 &#8211; Família é assim mesmo!</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Apr 2012 09:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[O garoto de calças xadrez]]></category>
		<category><![CDATA[alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[Drama]]></category>
		<category><![CDATA[Problem-Novel]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao invés de curtir a sua ressaca, Erick será arrastado para uma viagem de fim de semana em família. Mas pode ser que todos os envolvidos descubram que as coisas não são tão simples assim.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/couple.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1329 aligncenter" title="couple" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/couple-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Já estava quase sol a pino quando Erick desceu as escadas, com os cabelos molhados e meias. Bocejou com sono e com dor de cabeça, a claridade incomodava seus olhos azuis.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que entrou na cozinha topou com Márcio fazendo uma caipirinha, Joyce de biquíni amarelo minúsculo e shorts jeans, chupando um pirulito de cereja e André amarrando os sapatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sueli estava com os cabelos precisando de uma nova mão de tintura, com as raízes enormes, mas estava bem bonita, com eles presos em um coque banana e um vestido florido bem leve no corpo, sentada ao lado de Joyce, bebendo uma caipirinha de maracujá.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bom dia, Erick. – Joyce anunciou.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos se viraram para ele imediatamente, e o silêncio reinou na cozinha, até que Erick resolveu responder.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bom dia, tudo bem?</p>
<p style="text-align: justify;">– Super animada! E você?</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que eu estaria animado?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ué com&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Resolvemos que iremos todos viajar, estávamos te esperando, querido. – Sueli tomou a frente da conversa e ficou em pé de supetão. – Vou aproveitar e arrumar sua mala, para você não esquecer de nada!</p>
<p style="text-align: justify;">– Viajar? – a dor de cabeça de Erick piorou com a notícia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como você chegou tarde ontem, não deu tempo de te avisar, espero que não seja uma hora ruim. – Márcio fez questão de debochar e finalizou a caipirinha de morango estendendo para Joyce, enquanto Sueli saía da cozinha.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não, eu acho. – Erick sentou-se a mesa ao lado de André e serviu-se de um copo de água.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não quer uma caipirinha? – Márcio voltou a debochar. – Posso fazer de abacaxi pra você!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu odeio abacaxi.</p>
<p style="text-align: justify;">– Basta escolher outra fruta. Tem limão, maracujá, morango, fruta-do-conde, pêssego e figo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ew&#8230; figo&#8230; – Erick sentiu enjoo e deu um largo gole em sua água.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sabe, nada como um outro porre para curar uma ressaca! Pelo menos era isso que um amigo meu, Lúcio, sempre dizia&#8230; estudávamos juntos na faculdade, mas depois que as aulas acabaram, perdi notícias dele&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah tá. – Erick não queria conversar e não estava entendendo o que Márcio queria com aquele blá-blá-blá todo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Está de ressaca, Erick? – Joyce indagou, com um sorriso e o pirulito dentro da boca, de forma sensual. – Saiu ontem sem me chamar?</p>
<p style="text-align: justify;">– Você queria sair? – André indagou, meio enciumado, virando-se para Joyce que apenas afirmou com a cabeça. – Podemos sair hoje à noite.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick, você não tem tênis? – Sueli indagou da porta, com as sobrancelhas erguidas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tênis pra quê?</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que o André pode te emprestar um&#8230; – Márcio devaneou. – Ou podemos comprar um no caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu tenho um tênis.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você tem um All Star. – André debochou.</p>
<p style="text-align: justify;">– All Star é tênis.</p>
<p style="text-align: justify;">– Mas não serve pra onde iremos, babaca. – André continuou. – Eu te empresto um! Tenho uns trinta mesmo&#8230; Mas não sei se vai servir nesse seu pé de menina pequenininho! – debochou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que All Star não serve? – Erick perguntou com um pouco de preocupação em sua voz. Aquele tipo de afirmação vinda de André não era bom sinal&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Vamos para um hotel fazenda! – Joyce quem contou a notícia. – É perto de uma reserva ambiental, iremos fazer caminhadas, ver cachoeiras&#8230; essas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, não&#8230; – Erick reclamou, colocando as duas mãos na cabeça, tapando os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não quer ir? – Sueli indagou preocupada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Claro que ele quer! – Márcio insistiu e iniciou a preparação de uma caipirinha de limão. – Além do mais, não há outras opções, é um passeio familiar!</p>
<p style="text-align: justify;">Erick sentiu um martelo cair na sua cabeça, sentenciando sua morte: um passeio familiar com a família que não queria ter. Ô inferno!</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">■□■□■□■</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O pior da viagem não era Márcio cantarolando uma música brega de Roberto Carlos e nem Sueli divertindo-se com isso, fazendo os backing vocals, muito menos André roncando, dormindo com a cabeça na janela.</p>
<p style="text-align: justify;">O pior da viagem era, definitivamente, as pernas brancas e depiladas de Joyce, arrepiadas do frio do ar-condicionado e o bico do seio endurecido, que dava para ver no biquini. Ela estava com frio, os cabelos castanhos soltos cobriam seus ombros. A boca avermelhada do pirulito, já no fim, que ela chupava com toda calma e paciência, e de vez em quando passava pelos lábios como se fosse um batom, só para lamber o doce.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso era um martírio! Erick já estava quase morrendo, em uma inquietude sem fim, com tudo isso. Joyce era uma explosão inocente de sensualidade. O fazia de uma forma quase virgem&#8230; nem percebia que estava sendo sexy. Ela estava sendo uma garotinha brincando com um doce. Nem imaginava as reações que estava provocando.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Joyce, apesar de virgem, não era tão inocente. E estava mesmo era fazendo uma provocação. Sabia que os garotos achavam-na bonita e sensual. Sabia, porque muitos diziam&#8230; e isso era horrível, porque deixava mais óbvio uma tristeza: André não achava. André não a desejava, ela sabia. E estava lá, manezão, dormindo!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai, estou com frio. – disse baixinho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Também, taí quase pelada&#8230; – Erick reclamou, com sua sinceridade cheia de espinhos. Mas com um suspiro, tirou sua jaqueta de moletom preta, estendendo pra ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Mas assim você vai ficar com frio. – Erick deu de ombros e a cobriu com a jaqueta. – Obrigada, Erick.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nada. – ao menos ela se cobriria um pouco!</p>
<p style="text-align: justify;">– É verdade que você tá saindo com a Guta?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não?! – Joyce assustou-se, olhando para ele. – O André disse&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– O André é um otário. – com isso, Erick virou pro outro lado, olhando pra fora da janela.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce ficou quieta e vestiu o moletom. Com os cantos dos olhos olhou para André, que dormia com a boca aberta. A viagem ia ser uma droga, já estava prevendo&#8230; devia ter ficado em casa!</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">■□■□■□■</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Quando finalmente o carro adentrou o estacionamento do Hotel Fazenda, cheio de ursos desenhado nas paredes, Erick já estava praticamente em estado de histeria interna. Não aguentava mais Roberto Carlos sendo cantarolado em looping! Não aguentava mais as pernas de Joyce roçando na sua calça jeans e muito menos os roncos silenciosos de André. – isso porque André não era roncador, mas dormia de boca aberta respirando muito forte.</p>
<p style="text-align: justify;">Desceu do carro pisando de All Star no chão de granito. Márcio foi o segundo a descer, encarou seu filho com um sorrisão na boca, mostrando todos os dentes:</p>
<p style="text-align: justify;">– Lindo lugar, não?</p>
<p style="text-align: justify;">– É. – nem era! Tava nublado, pra começar!</p>
<p style="text-align: justify;">Márcio estendeu uma chave para Erick, do hotel, com o número 533 no chaveiro.</p>
<p style="text-align: justify;">– É um quarto, mas tem três camas. Onde nós, homens ficaremos! As mulheres ficarão em outro quarto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você tem o que? Dez anos? – Erick retrucou, mal-humorado. Fechou a porta do carro com força.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick, não fala assim com seu pai. – Sueli reclamou, do outro lado do carro. Joyce saiu do carro logo em seguida, após André.</p>
<p style="text-align: justify;">– Calma, Su. – Márcio interveio. – Viemos aqui para comemorar, viajar em família&#8230; não brigar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Qual o problema de vocês? – Erick continuou, irritado. – Eu não tô a fim de comemorar merda nenhuma! Não deu pra entender?– e chutou o pneu do carro, se tivesse de coturno seria mais dramático.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick! – Márcio o segurou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Me solta, me deixa em paz! – Erick se debateu até ser solto e assim que Márcio soltou seus braços, saiu correndo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Erick! – Sueli gritou por ele.</p>
<p style="text-align: justify;">André não pensou duas vezes, ainda estava sonolento, mas era rápido: correu atrás do suposto irmão. Correu depressa, mas enquanto corria teve tempo suficiente para pensar, como se o tempo fosse relativo e estivesse em câmera lenta. Seria melhor deixar Erick correr para bem longe e sumir. Desaparecer para sempre, nunca mais voltar. Ao mesmo tempo, sentiu uma dor estranha ao pensar isso. Sentiu-se egoísta&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">E foi então que Erick parou. Com as duas mãos no joelho, sem ar. Cansado. Sentiu tontura, o estômago revirou da ressaca. Foi ao chão quando André se jogou em cima dele, derrubando-o no gramado do jardim do Hotel.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você é um idiota! – subiu em cima de Erick para lhe dar uns bons cascudos. – Um idiota!</p>
<p style="text-align: justify;">– Cala a boca!</p>
<p style="text-align: justify;">– Não me manda calar a boca, seu otário! Filhinho de papai imbecil! Boyzinho escroto!</p>
<p style="text-align: justify;">– Cala a boca!</p>
<p style="text-align: justify;">– Você é um inútil! – André por ser atleta era superiormente forte. Sem dificuldades imobilizou Erick no chão segurando seus braços, e seu corpo, com seu peso.</p>
<p style="text-align: justify;">– Me solta, que merda! – Erick tentou se soltar, mas André estava irritado e com toda sua força o segurou pelo pescoço, prendendo-o no chão. – Para com isso! – Sentiu o ar faltar e segurou nos braços de André.</p>
<p style="text-align: justify;">– Imbecil! – André berrou mais uma vez. – Idiota!</p>
<p style="text-align: justify;">Erick encarou os olhos de André, vermelhos de raiva. Estava totalmente fora de si, nunca imaginou que veria André dessa forma. A asfixia piorou, machucando sua pele.</p>
<p style="text-align: justify;">E depois tudo aconteceu depressa demais: Joyce berrou, Márcio apartou os meninos e Sueli tremia sobre suas pernas bambas, tendo uma crise de pressão baixa.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que é que você pensa que está fazendo? – Márcio chocalhou André com toda sua força, enquanto Erick tossia recobrando o ar. – Enlouqueceu? – e depois soltou seu enteado, voltando-se para seu filho, ajudando-o a erguer-se do chão.</p>
<p style="text-align: justify;">André ficou estático, meio sem entender o que havia acontecido.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ótimo! Grande! Vocês dois estão de castigo! Acabaram de estragar a viagem, espero que gostem e divirtam-se! – Márcio berrou, irritado. – Eu não sei qual é o seu problema! – e essa frase foi pra Erick, porque se virou para o garoto com o dedo em riste. – Talvez você não goste da ideia de morar conosco, mas acostume-se! Essa é sua família agora! Você é meu filho! Eu sou o seu pai! André é seu novo irmão e a Sueli é sua nova mãe! Lide com isso, você não é uma criança!</p>
<p style="text-align: justify;">Erick não conseguiu pensar. A única coisa de que tinha certeza era que aquela não era sua família, aquele não era seu pai, ele não tinha irmãos e aquela mulher não era, nem de longe, sua mãe!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não aguento mais! – foi o que gritou. – Eu não aguento mais essa merda!</p>
<p style="text-align: justify;">– Fica quieto e já pro seu quarto, mocinho!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não quero! – Erick retrucou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não estamos abertos à discussão, já pro seu quarto! É melhor você ir por bem do que por mal!</p>
<p style="text-align: justify;">– É? E o que você vai fazer?!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu cansei dessa sua arrogância, Erick. – Márcio segurou o braço de seu filho com toda a força que tinha.</p>
<p style="text-align: justify;">– Me solta!</p>
<p style="text-align: justify;">– Você vai pro seu quarto de castigo! E vai porque eu estou mandando! – E Márcio arrastou o seu filho pelos corredores do Hotel Fazenda cinco estrelas. – Vai aprender a respeitar o seu pai! – sumiu com Erick, pelo corredor.</p>
<p style="text-align: justify;">Sueli passou a mão na testa, secando o suor e encarou André, que estava estático. Foi abraçar seu filho e beijou-lhe o rosto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vai ficar tudo bem. – foi o que sua mãe lhe disse. – Vai ficar tudo bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Joyce queria ir embora. Aquilo era o inferno!</p>
<p style="text-align: justify;">Não sabia o que era pior: André e Erick brigarem ou Márcio e Erick brigarem. A única coisa que sabia era que aquela família estava longe de ser uma família, porque ninguém se compreendia.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Baixe o PDF</strong></em></p>
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		<title>♫ 05 &#8211; Fofocas</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 19:23:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Passos Perfeitos]]></category>
		<category><![CDATA[Colégio]]></category>
		<category><![CDATA[J-Pop]]></category>
		<category><![CDATA[J-rock]]></category>
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		<description><![CDATA[Fofocas, até onde podem chegar? Ann está triste com todo o assunto sobre Luis ter uma namorada, Lisa tenta distraí-la com o clube de ballet e Mirian dá conselhos, para ajudar a amiga. Será que Ann consegue esquecer Luis e seguir em frente? Ou será que o amor fala mais alto?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/03/amigas_fofocando_thumb.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-1339 aligncenter" title="amigas_fofocando_thumb" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/03/amigas_fofocando_thumb-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não acredito&#8230; – Ann tremia e choramingava atrás da escola, junto com suas amigas.</p>
<p style="text-align: justify;">Lisa estava sentada ao seu lado, Melina não parava quieta com a mão no queixo. Mirian com o fone de ouvido estava ao lado de Lisa, porém de pé, com um pé na parede e as mãos cruzadas, olhava para outro lado da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu deveria imaginar, me perdoe Ann, logo naquele dia que a gente estava andando de patins ele parecia muito estranho. – Lisa comentou, lembrando-se do primeiro dia que Ann viu Luis.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bem&#8230; – Melina parou de andar olhando para as duas sentadas. – Todo garoto é assim.</p>
<p style="text-align: justify;">– Mas ele não é assim, não pode ser assim! Ele me falaria sobre essa menina&#8230; – Ann baixou a cabeça envergonhada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nenhum garoto falaria, meu bem, é tipo a lei de homens. Sabe como é, e quando é assim&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah qual é garota&#8230; – Fernanda apareceu, junto com Marilia, que estava com um salgadinho na mão. – Todo mundo sabia sobre a namorada do Luis, aposto que até a Lisa sabia, mas ela estava se divertindo demais com sua dor. – Ann olhou para Lisa espantada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Claro que não, né Ann! – Lisa olhou para Fernanda. – O que você quer aqui?</p>
<p style="text-align: justify;">– Só queria ficar feliz hoje, já vi alguém triste e já me sinto bem melhor! – Fernanda sorriu, olhou para Mirian, que pareceu não perceber que ela estava ali, e se agaixou perto de Ann. – Acho que essas pessoas não são boas influencias para você. – Ela olhou Lisa. – Mas você quem sabe, se quiser ficar com fama de corninha e também amiga de assassina.</p>
<p style="text-align: justify;">– É&#8230; Fe&#8230; Fernanda&#8230; – Marilia olhou espantada para ela, Fernanda olhou para trás, Marilia apontou um pouco para frente da garota. – Acho melhor você se virar&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Fernanda se virou e deu de cara com Mirian, agaixada na frente dela, com os cotovelos apoiados nos joelhos que estavam meio abertos, o fone de ouvido estava no pescoço.</p>
<p style="text-align: justify;">– Some daqui. – A voz fria e nada gentil de Mirian fez Fernanda se lembrar do soco que recebeu outro dia. Ela nem tinha chego na escola ainda, sempre chegava de ônibus e pedia para descer um ponto antes do ponto perto da escola, para ninguém ver que ela chegava de ônibus, sempre mais cedo, e eram 6:40, no ponto estava Mirian, de braços cruzados olhando para ela, o ônibus seguiu caminho e como era de manhã não tinha tanta gente na rua, a não ser os poucos alunos que chegavam cedo.</p>
<p style="text-align: justify;">– No ponto para trabalhar, garota? Não acha que está cedo demais? – Antes que Fernanda pudesse continuar a andar recebeu um belo soco no olho, tombou na hora no chão, os sentidos todos perdidos, sentiu Mirian puxando seus cabelos para trás para Fernanda olhar para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Na próxima será bem pior, fique longe da Lisa&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, está apaixonada? – Fernanda riu, mas recebeu outro soco.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não me faça quebrar todos seus dentes podres para ouvir essa sua voz de vagabunda, se você fizer algum mal novamente para ela&#8230; – Mirian tinha segurado seu queixo com tanta força que sua cabeça levantou olhando ainda mais para ela. – terá que fazer tantas plásticas nessa sua carinha imunda que se arrependerá quando for uma velha nojenta e lembrar de mim. Entendeu? – Fernanda estava tão assustada que balançou a cabeça involuntariamente dizendo que sim, quando Mirian largou ela, Fernanda teve que esperar alguns minutos para sua consciência voltar a si.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma fria como Mirian tinha falado para sumir dali fez ela até cair para trás, levantou– se rápido e foi perto de Marilia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Venha Marilia, essas gentinhas ai não merecem nosso tempo. – Ela olhou Melina. – Acredito que a senhorita – Ela sorriu feliz, todos na escola realmente amavam Melina. – está no lugar errado, venha nos visitar qualquer dia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Claro, quem sabe. – Melina acenou sorrindo, Fernanda saiu, com Marilia logo atrás dela, Mirian se levantou e foi perto da parede novamente. – Garota, você tem uma fama <em>muito boa</em> aqui na escola. – Melina olhou Mirian, que estava prestes a colocar o fone.</p>
<p style="text-align: justify;">– Digo o mesmo, só que a minha tal fama é verdadeira. – Mirian colocou os fones e voltou a olhar o outro lado.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ahhh&#8230; – Yue estava correndo para perto delas. – Oi&#8230; – Ofegante, tentou recuperar o folego. – Lisa, o motorista da minha familia está aqui, pronto?</p>
<p style="text-align: justify;">– Desculpe Yue, por fazer você pedir um mordomo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah tudo bem, a Ann está tão triste que dói meu coração ver.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bem&#8230; vem Ann&#8230; – Lisa ajudou Ann a se levantar, Mirian foi logo atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você vem, senhorita Melina? – Yue esta do outro lado de Ann, segurando a mão dela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, não, eu tenho treino hoje, nos vemos amanhã para os panfletos meninas! Bejitos! – Melina saiu saltidando para o outro lado.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vem, já informei sua casa para o Samuel. – As meninas entraram no carro luxuoso.</p>
<p style="text-align: justify;" align="center">✿⊹⊱         »«            ⊰⊹✿</p>
<p style="text-align: justify;">O quarto estava silencioso, somente o som baixo da TV quebrava aquele silêncio, Ann estava dormindo nas pernas de Lisa, Mirian estava deitada na cama que Ann usava, com uma almofada enorme em baixo dos pés e uma bacia de pipoca em cima de sua barriga, Yue estava junto com Lisa, os pés de Ann em cima das pernas dela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa, ela chorou muito que até dormiu. – Yue olhou para Ann, de forma triste.</p>
<p style="text-align: justify;">– O primeiro beijo dela com um monstro. – Lisa acariciou os cabelos de Ann.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele poderia ter contado que namorava. – Yue olhou para Mirian, que assistia a TV que ficava ali na frente.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não vamos deixar ele chegar perto dela! – Lisa falava com raiva.</p>
<p style="text-align: justify;">– Hum&#8230; – Mirian pegou um pouco da pipoca colocando a mão cheia na boca, apontou com a mão fechada para elas pois ainda tinha pipocas na mão, ainda olhando a tv. – Não que eu me importe – ela falava de boca cheia. – Mas acho que isso não é problema mais de vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não fale assim! – Lisa olhou para Mirian. – Ela é nossa amiga agora, ela fez muito por mim, eu não a quero magoada.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian olhou Lisa, mascou a pipoca até terminar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se você acha que proibindo dela saber realmente a verdade vai ajudá– la, por mim faça como quiser.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sabemos a verdade! A Melina descobriu! Do próprio melhor amigo dele! – Ela falou brava, olhou Ann para ver se não tinha acordado ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian revirou os olhos e continuou a ver TV.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você que sabe – ela pegou mais da pipoca– você que confia naquela maluca. – colocou na boca.</p>
<p style="text-align: justify;">– Obrigada Yue por vir também – Lisa sorriu olhando Yue, a garota abaixou a cabeça sem graça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu que agradeço. Nunca entrei na casa de alguém além da minha e dos meus avós. – Ela sorriu tímida.</p>
<p style="text-align: justify;">– De nenhuma amiga? Mas as suas amigas estudam com você, não é? – Lisa viu Yue balançar a cabeça dizendo que não, Mirian também olhou de canto de olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Meus pais são muito exigentes. – Ela sorriu olhando para as mãos.– São muito tradicionais, eu entrar na sua casa sem nem presenteá– la com algo, é como uma ofensa, eu sinto muito não ter trazido algo, é que eu fiquei tão apavorada com a Ann chorando que&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Não se preocupe! Mas da próxima vez traga um bolo de chocolate! – Lisa interrompeu para aproveitar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Cl– claro! – Yue riu timida.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouviram bater na porta, três batidas fortes, Lisa endureceu olhando a porta.</p>
<p style="text-align: justify;">– Entra. – disse séria.</p>
<p style="text-align: justify;">– Lisa&#8230;. – Rogério, pai de Lisa apareceu na porta, olhou as quatro garotas e depois fixou o olhar em Mirian, que continuava da mesma forma, comendo pipoca e nem olhava para ele, depois pousou os olhos em Yue, a garota olhava para ele e balançou a cabeça parecendo reverenciá–lo. – Venha no meu escritório&#8230; – ele olhou mais uma vez ao redor quando ia fechar a porta disse de forma séria. – Agora. – E saiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Lisa segurou a cabeça de Ann e saiu, colocando um travesseiro na cabeça da menina, olhou Mirian e Yue.</p>
<p style="text-align: justify;">– Já volto. – Ela sorriu e saiu correndo.</p>
<p style="text-align: justify;">Yue olhou para Ann e sorriu, depois olhou para Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quer pipoca? – A menina ofereceu pra ela a bacia sem olhar. Ouviram uns gritos de Lisa brigando com o pai, Yue estremeceu, olhando para a bacia de pipoca.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não! Estou cansada disso! Se você quer você pede, para de ser um sangue– suga! – Ouviram Lisa gritando;</p>
<p style="text-align: justify;">– Vai querer ou não? – Mirian olhou para Yue, que se assustou e olhou para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que– quero&#8230; – Ela deixou delicadamente a perna de Ann na cama e foi até a bacia. – Obrigada&#8230; – pegou com uma mão um pouco da pipoca, sentou– se no chão olhando a tv, comeu silenciosamente a pipoca. Ouviu mais alguns gritos e olhou para a porta, depois para Mirian, Mirian também olhou para ela dando de ombros.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não gosto deste filme. – Mirian voltou a assistir.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porquê? É um romance muito bonito, a senhora escreveu aquela carta para Julieta a anos atrás. – Yue olhou a tela. – Ai a Sophie responde e a senhora a Claire vai visitar ela agradecendo, é muito fofo. – a garota comeu mais da pipoca sorrindo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa, tá na cara que o neto da velha ai vai ficar com a loirinha lá. E certeza que eles vão tentar achar o velhote que não dava bola pra ela antes e agora vai achar ela perfeita. – Mirian também pegou mais da pipoca e continuou com a boca cheia. – Mas é só porque ele está viuvo. Típica historinha. – Yue riu.</p>
<p style="text-align: justify;">– É um amor muito forte, esperar alguém por anos é muito bonito. – Ela sorriu e olhou Mirian, que revirou os olhos. – Vo– você nun&#8230;nunca gostou de alguém Mirian? – Ela estava olhando curiosa para Mirian, as mãos se remexeram gordurosas da pipoca.</p>
<p style="text-align: justify;">– Já achei que sim. Mas eu era pequena e acho que&#8230; – Ela olhou de canto para Yue que estava com os olhos castanhos nela. – Acho que meu pai não conta para sua pergunta, conta? – Ela viu Yue rir e fazer não com a cabeça. – Bom, então não.</p>
<p style="text-align: justify;">– Co– como você consegue?! – Ela disse vermelha.</p>
<p style="text-align: justify;">– Então, você&#8230; – Mirian olhou de canto para Yue. – fica gostando das pessoas?</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah&#8230; – Yue ficou um pimentão. – Bem, quando eu era menor, com 13 anos eu gostava sempre de alguém diferente, até descobrir que não era gostar, era só “nossa como aquela pessoa é gentil”&#8230;– ela sorriu com vergonha.</p>
<p style="text-align: justify;">– São seus hormônios. – Mirian voltou a olhar a tv.</p>
<p style="text-align: justify;">– Hum? – Yue fez cara que não entendeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian olhou para ela, era muito cruel falar essas coisas para Yue? Sempre via a menina como uma garotinha inocente segurando um urso de pelúcia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nada não, esquece. – Ela sorriu só para Yue não perguntar mais.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você é bastante amiga da Lisa, não é? – Ela sorriu olhando– a.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim.</p>
<p style="text-align: justify;">– Faz tempo?</p>
<p style="text-align: justify;">– Desde quando me mudei. – Ela olhou Yue e sabia que a garota ia perguntar mais. – Eu tinha uns 7 anos 8 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa! Isso é muito fofo!</p>
<p style="text-align: justify;">– O que? – Mirian olhou sem entender.</p>
<p style="text-align: justify;">– É muito tempo de amizade!</p>
<p style="text-align: justify;">– É normal, eu acho.</p>
<p style="text-align: justify;">– Foi muito difícil para ela, não foi? – Yue olhou para baixo. – Eu não tinha ido naquela festa, não tinha sido convidada&#8230; – Yue falou baixo, falava sobre o dia do acidente da mãe de Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Foi sim, mas acho que ela está melhorando. O tempo deixa as pessoas amadurecerem. – Mirian pegou mais pipoca, colocando na boca. – E eu também não tinha sido convidada, só estava lá porque a Lisa insistiu muito.</p>
<p style="text-align: justify;">– Fiquei sabendo que você também salvou Lisa naquele dia. – Ela olhou curiosa para Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bem&#8230; não foi bem salvar a vida. – Ela revirou os olhos, como as pessoas da escola fofocavam. – A Lisa ia correr para o acidente, e estava vazando muita gasolina do caminhão e do carro, eu percebi e quando ela ia correr puxei ela, tive que abraçar ela pra ela não sair correndo e então explodiu tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que bom que vocês estavam junto com ela. – Ela sorriu triste.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vocês? Ah, você tá falando da Fernanda e da Marilia? – Mirian olhou Yue. – Por elas a Lisa teria morrido, Fernanda ficou o dia inteiro reclamando que a blusa que ela tanto queria da Lisa foi junto com o fogo e a Marilia comendo a comida da casa da Lisa. São umas idiotas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu ainda não consigo acreditar&#8230; – Yue olhou para as mãos, e limpou na saia da escola, olhou para Mirian que olhava com duvida. – Ah, é que antes a Lisa era bem&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Diferente?</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, ela era tão mimada, e popular, todo mundo invejava ela na escola. Eu gostava muito das roupas dela, mas prefiro a Lisa de agora. – Ela sorriu. – A Lisa de agora se importa realmente com suas amigas e cuida de você&#8230; – Ela ficou vermelha e olhou Mirian que estava vendo a TV normal. – Digo, cuida das amigas&#8230; – Olhou para baixo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian ficou quieta um momento, largou a pipoca no criado– mudo do lado da cama.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ela mudou muito com as pessoas. Antes ela não falaria com você, não é? – Ela olhou Yue que concordou. – As vezes parece que caiu um raio na cabeça dela. Eu acho que ela apenas acordou para a vida, teve que perder quem amava para perceber, digo acordar porque antes achava que o mundo era um conto de fadas rosa e felpudo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu acho muito estranho&#8230; – Yue parou de falar por algum momento e Mirian deixou– a escolher suas palavras. – Acho muito estranho a Melina do nada falar com vocês, bem, ela é bem popular e todos na escola adoram ela. Eu tenho medo dela, tenho medo do que ela possa fazer&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Como assim? – Mirian olhou para ela, não entendendo do que a menina estava falando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porque ela estaria falando com Piedro? Porque ela machucou você e agora quer ser amiga de vocês? Eu gostava dela, achava ela linda, perfeita, mas quando eu vi o que ela fez em seu rosto&#8230; eu&#8230; – baixou a cabeça. – bem&#8230; eu fiquei muito triste, foi como um&#8230; um soco, sabe&#8230; – Ela olhou Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian franzia a testa, depois riu colocando a mão na cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você se preocupa demais, a Lisa parece que já se acostumou com a presença insignificante dela. E a Ann também. – Ela deu de ombros.</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho injusto&#8230; – ela olhou de canto triste para Mirian. – Injusto com você, quem foi machucada, quem teve o rosto arranhado foi você. Elas estão pensando somente na Melina.</p>
<p style="text-align: justify;">– A Lisa sabe que não ligo, mesmo que a Melina fez isso. – Ela deu de ombros e trocou de canal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por quê? – Yue olhou o canal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porque eu ligaria? – Ela olhou Yue. – Quanto mais você liga para as pessoas que tentam te machucar e te rebaixar, mais elas fazem, então eu só ignoro ou bato nelas. – Ela sorriu como se a segunda opção era a mais divertida.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tem gente na escola que tem medo de você – Yue riu.</p>
<p style="text-align: justify;">– É eu sei.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você não tenta arrumar? Digo&#8230; consertar o que eles acham? – Ela olhou Mirian que não respondeu. – você prefere que eles pensem assim, não é? – Yue sorriu. – No fundo acho que você é uma garota adorável e meiga. – Ela viu Mirian olhar para ela meio surpresa e se levantar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você fala demais. – Estava indo para a porta. – Vou ao banheiro&#8230; – Saiu depressa sem graça.</p>
<p style="text-align: justify;">– De– desculpe&#8230; – Yue ficou vermelha e voltou a se sentar perto de Ann.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian saiu do quarto e olhou para a escada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Essa menina é maluca. – Desceu as escadas e olhou para a porta entre-aberta do escritório do pai de Lisa, a menina estava sentada, de costas para a porta, o pai atrás da mesa na frente de Lisa, ele estava sussurrando agora, Mirian respirou fundo e tomou outro caminho, entrando na cozinha, a luz acendeu sozinha, não se assustou, já estava acostumada com a casa estranha de Lisa, pegou um copo de água e bebeu. Ouviu o ranger da porta do escritório e Lisa saiu, Lisa viu a cozinha acesa e foi até lá.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, você está ai, o que foi? – Ela olhou Mirian, que ainda tinha as bochechas rosadas. – A Yue te agarrou? – Ela riu.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você fala muita merda, cala a boca!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ui ui, me da esse mel, abelhinha&#8230; – Lisa passava a mão nos braços de Mirian, que tentava expulsar a amiga.</p>
<p style="text-align: justify;">– Para! Vocês são todas estranhas e esquisitas! – Ela parecia brava e Lisa parou, sentou– se na frente dela.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que houve? – Lisa olhou para ela juntando as sobrancelhas de forma triste.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que você não liga?</p>
<p style="text-align: justify;">– Pra quem?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não esse tipo de ligar, porque você não liga pro Sandro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quem? – Lisa fez uma careta.</p>
<p style="text-align: justify;">– O Sandro, aquele que estava comigo na enfermaria e depois no fim da aula.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que que tem ele? Acho que ele gosta de você. – Lisa riu.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu quero que ele se foda! Eu não entendo, você gostava dele, ele fez a maior idiotice com você, e você simplesmente tratou ele como alguém normal! – Ela olhou Lisa de forma brava mas ao mesmo tempo confusa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah&#8230; isso&#8230; – Lisa coçou o queixo pensando. – Talvez porque aquele Sandro que você encontrou não é o mesmo que fez aquilo comigo&#8230; – Ela continuava na mesma posição pensando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que? – Mirian olhou para ela sem palavras.</p>
<p style="text-align: justify;">– Aquele Sandro não é o irmão da Melina?</p>
<p style="text-align: justify;">– E eu vou saber? – Mirian deu de ombros e bebeu um pouco da água.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele deve ter te falado, o Sandro de quem eu te falei nem era da escola, se bem que eu falei pouco dele, né? Ahhh – Ela agarrou Mirian. – Que bonitinho você estava preocupada comigo!!!</p>
<p style="text-align: justify;">– Me larga. – Ela tirou os braços de Lisa e se levantou, colocando o copo na pia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você bateu nele? – Lisa viu Mirian olhar para ela. – No Sandro, irmão da Melina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian deu de ombros, nem lembrava o que tinha feito.</p>
<p style="text-align: justify;">– Pede desculpas para ele então.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porque eu faria isso? – Mirian levantou uma sobrancelha.</p>
<p style="text-align: justify;">– Oras, você confunde o fofo do Sandro com o outro Sandro idiota.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ambos parecem idiotas para mim.</p>
<p style="text-align: justify;">– Peça desculpas, aposto que você tratou ele super mal. – Ela viu Mirian dar de ombros. Lisa riu. – Vamos a Yue deve estar sem graça lá sozinha. – Foram subindo. – Que coisa maluca ser um insulto não trazer presente né? – Ela olhou Mirian, que estava quieta olhando para ela também. – Onde já se viu?! E não trouxe nenhum mesmo!</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian balançou a cabeça e revirando os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;" align="center">✿⊹⊱         »«            ⊰⊹✿</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian andou até o refeitório, onde haviam cadeiras e mesas algumas vazias, outras com alunos almoçando, Sandro estava lendo um livro enorme, com um pacote de fandangos de queijo em cima caído, ele mais comia do que lia, ela parou na frente dele, colocou um dos joelhos na cadeira, a mesa separava eles, inclinou– se um pouco para frente, viu os olhos tão diferente de Melina que não acreditou que fossem irmãos, ele parecia assustado quando a viu, largou o livro na hora.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu, Mirian Christine Kinski, peço desculpa por ter tratado você como sendo outra pessoa&#8230; – ela olhou para trás, e Lisa, Ann, Yue e Melina estavam olhando-a, esperando ela terminar, ela revirou os olhos, voltando a olhar Sandro. – E peço desculpas por&#8230; – ela pensou por um momento. – Tratá– lo como deveria ser tratado mesmo que minhas amigas não achem certo&#8230; – a esta altura ela já estava falando mais séria e brava. – e mesmo em vez de me avisar ficou como uma sombra atrás e&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Mirian! – Lisa chegou perto, Mirian tirou o joelhos da mesa e cruzou os braços olhando para Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– <em>Qui é?</em> Eu tô fazendo o que você falou pra eu fazer, pedir desculpas.</p>
<p style="text-align: justify;">– I– isso é um pedido de desculpas? – Sandro olhou para as duas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se não gosta o problema é seu. – Ela mostrou o dedo do meio pra ele e se virou. – Garoto ingrato. – Saiu andando, deixando Sandro sem entender nada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Mas&#8230; – ele olhou Lisa. – Desculpas pelo o que? – Ele viu a garota esquisita sentar– se a sua frente e começar a explicar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian foi perto de Ann, colocou os fones e ficou de braços cruzados olhando para outro canto.</p>
<p style="text-align: justify;">Ann começou a bater palmas rapidamente contente.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que bonitinhos vocês ficam juntos! – Ela abraçou Mirian, que ficou quieta nem olhando para elas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu achei ridículo. – Melina cruzou os braços também. – Meu irmão é muito perfeito para a senhorita Gelo, ai – Apontou com o queixo para Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– E-eu&#8230; eu também acho que eles não combinam&#8230; – Melina e Ann olharam para Yue. A garota ficou vermelha na hora. – Bem&#8230; eu acho que a Mirian é muito mais madura que ele&#8230; por&#8230; por isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Lisa voltou sorrindo fazendo “joia” com a mão.</p>
<p style="text-align: justify;">– Pronto agora ele esta a par de tudo!</p>
<p style="text-align: justify;">Melina olhou o irmão que fazia cara de desentendido e contava algo nos dedos, olhou Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ou não.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bom, ele entenderá em breve! Vamos, que eu já preparei alguns cartazes para colocarmos por ai. – Lisa sorria.</p>
<p style="text-align: justify;">– Cartazes? – Yue perguntando indo atras de Lisa e das outras meninas que começaram a andar.</p>
<p style="text-align: justify;">– É do nosso clube! Olha! – Ela pegou um na mochila e colocou na frente de Yue, a garota quase não conseguia ler, Yue pegou o papel lendo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ahh ficou fofo! Quem desenhou essa bailarina? – Yue sorria para o cartaz, tinha uma linda bailarina loira com uma saia de tule rosada, delicada fazia uma pose de ballet. Melina olhou para o papel.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah essa foi eu! Cada uma fez um cartaz diferente. – Melina pegou a folha olhando para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, posso ver os outros? – Yue curiosa queria saber como era o desenho de Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah, aqui ó&#8230; – Lisa tirou outro bolo de cartaz e separou quatro folhas. – Essa você já viu, que é da Melina. Yue pegou a folha que Lisa estendia, vendo a bailarina fofa de rosa. – Essa foi a Ann. – Ela entregou um panfleto que atras do desenho era um degradê colorido, tinha um sapatinho de bailarina rosa no canto direito acima, uma bailarina gordinha desenhada em forma de cartoon.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai que fofinha, Ann! – Yue olhou Ann, que estava sorrindo para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Essa foi eu. Não gostei muito das cores mas&#8230;– Lisa falou, sendo interrompida por Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se as cores fossem o problema&#8230; – a garota revirou os olhos, na mania que sempre tivera e que Yue achava uma fofa fazendo aquilo.</p>
<p style="text-align: justify;">Yue pegou o papel, que era inteiro preto, com letras metalicas, um sapatinho de bailarina do mesmo formato do que o de Ann, fazendo Yue pensar que elas haviam baixado na internet e copiado, era verde e os laços azul, tinha um ursinho pintado com caneta de gel branco e cinza em um canto, cheio de flores enfeitando ao redor de uma&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Isso aqui é uma cesta de frutas? – Yue olhou bem para ter certeza.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sim, oras. – Lisa olhou o desenho e respondendo como se fosse normal.</p>
<p style="text-align: justify;">– O que tem haver com ballet? – Ela olhou as meninas que deram de ombro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Tem tudo haver! – Lisa disse emburrada, parecia que esse era um assunto muito polemico entre elas. – Eu falei para elas, mas não me escutaram! Você come frutas, não come? – Yue fez sim com a cabeça. – Então, poxa! – Lisa bateu as mãos nas pernas, indignada. – As bailarinas também come! Eu como! Até os coalas comem.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah&#8230; claro&#8230; – Yue disse meio sem jeito, não fazia o menor sentido, e as frutas tinham cores erradas. O morango estava roxo, o que parecia maça era preto com as bordas de dourado, a banana estava azul e marrom, a melancia tinham três cores: amarelo, verde e azul. – Está&#8230; está&#8230; diferente. – Ela olhou Lisa, que sorria.</p>
<p style="text-align: justify;">– Viu só? Porque vocês não podem ser uma amiga que nem a Yue? – Lisa abraçou Yue.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porque ela esta tentando só ser mais gentil que nós podíamos ser. – Mirian andava na frente.</p>
<p style="text-align: justify;">– Se gentileza é fazer bolinha de papel com meu cartaz e acertar minha cabeça! Eu preciso ler de novo o dicionário! – Lisa soltou Yue e mostrou a língua para Mirian, que não ligou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ficou bonito Lisa, não fica assim! – Ann abraçou Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Humm&#8230; – Lisa brincando estar brava deu um suspiro, e entregou o ultimo cartaz para Yue. – Esse é da feiosa, aí!</p>
<p style="text-align: justify;">Yue pegou rapidamente, curiosíssima, olhou o papel e não aguentou, começou a rir. Mirian olhou para ela e revirou os olhos andando mais rápido.</p>
<p style="text-align: justify;">– Calma Mirian! – Ela tentou ir até a menina, as amigas foram junto rindo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Fizemos a mesma coisa, Yue, ficou muito&#8230; – Lisa tentava explicar rindo também.</p>
<p style="text-align: justify;">– Fofo. – As quatro meninas falaram juntas, Mirian queria enfiar a cabeça no lixo e continuou andando.</p>
<p style="text-align: justify;">Yue olhou de novo o cartaz, estava muito simples, o papel meio amarelado, com a escrita bonita, informando a sala do clube, o clube, tudo básico, mas o que dava o charme era o desenho. Uma bonequinha de palitinho, que tinha uma saia de tule pintado de rosa, e um blusão de capuz um pouco mal desenhado, os cabelos da boneca pareciam os de Mirian, a boneca fazia pose de ballet, com as mãos para cima, com um sorriso de Smile na cara e os olhos felizes, tinha duas bolinhas vermelhas desenhadas onde seriam as orelhas, o que Yue interpretou sendo os fones, Mirian tinha desenhado ela mesma. Por isso as meninas riam dela e acharam fofo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Porque alguém, em sã consciência iria querer entrar em um clube de ballet onde metade das integrantes não sabem ballet? – Mirian olhou para trás, e viu Lisa, Ann e Melina pensando.</p>
<p style="text-align: justify;">– A única que esta no clube e não sabe é você. – Melina lembrou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Fui forçada. – Mirian virou novamente e continuou andando cruzando os braços.</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que todos vão querer entrar, por causa da Melina, você é tão popular! – Yue sorrindo olhando Melina.</p>
<p style="text-align: justify;">– É talvez&#8230; – Melina deu de ombros. – Eu não aguento os outros clubezinhos, são tão insignificantes.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu&#8230; eu gosto do clube de pesquisa e do clube de literatura e do clube de matemática&#8230; – Yue baixou a cabeça sem graça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como você consegue ficar em tantos clubes nerds? – Lisa olhou Yue e começou a rir.</p>
<p style="text-align: justify;">Ann andava calada olhando para o chão, Lisa percebeu, sentiu raiva por um momento e decidiu alegra-la.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei, vamos comprar uns doces! – Lisa segurou na mão de Yue. – Espera ai! – Lisa entregou a sacola de panfletos para Ann.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu vou também, eu tenho dieta de doces viu?! – Melina foi atrás das duas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian olhou para trás e viu Ann sozinha, olhou ao redor e viu as meninas correndo para a cantina, andou até Ann e pegou um punhado de panfletos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não que eu esteja interessada. – Mirian foi até um pilar, colocou os panfletos embaixo do braço, empurrou com os ombros a mochila para frente de seu corpo, abrindo e pegando uma fita dupla face e a tesoura, fechou e jogou novamente para trás. – Mas sabe&#8230; – Ela cortou algumas tiras de quadrados da fita e colou quatro em um cartaz. – Acho que você nem tem certeza do que aconteceu. – Ela colou o cartaz na parede e olhou para Ann. – E bem&#8230; vindo da Melina, você não pode ter certezas das coisas. – Colocou mais alguns cartazes. – Só acho meio bobo você ficar toda triste, por alguém que você mal conhece e confia em outra pessoa que você conhece menos ainda. – Ela olhou para trás e Ann estava pensando, pegou outro cartaz e foi perto de Ann colocando a fita no cartaz. – Eu sei que não sou a pessoa mais legal dessa escola e que não confio na Melina, mas acho que você deveria ouvir dele mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ann olhou para ela, pensou por um tempo, ela gostava da Melina, mas não deu uma chance para o Luis, mas o que Lisa iria pensar. Ela olhou para a cantina e as amigas estavam pedindo e discutindo sobre o que pegar, viu Milena se aproximando e parando para conversar com um grupo de fã dela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que, assim como a Yue disse, você no fundo é uma pessoa do bem, só esta preocupada demais com os outros, em vez de estar com você mesma. – Ann disse, mostrando que estava acordada na hora que elas estavam conversando na casa de Lisa. – E a Lisa ficaria decepcionada.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu acho que ela entenderia. – Mirian se virou e foi em outra pilastra colocar o cartaz.</p>
<p style="text-align: justify;">As meninas voltaram com um saco de doce, Ann sorriu quando pegou um pirulito.</p>
<p style="text-align: justify;">– Olha só quem ta trabalhando! – Melina olhou Mirian, a menina continuou colando outros cartazes, em vez de retrucar, Melina olhou para Lisa, que olhou para Ann que olhou para Yue. – Ela não retrucou? – As meninas deram de ombro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Lisa, po-posso falar com você? – Ann aproximou-se de Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu já volto. Preciso ir ao clube de tênis. – Milena saiu de perto rapido, quase correndo.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe das amigas Ann explicou para Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Gostaria de falar com o Luis e não queria que você ficasse triste ou chateada comigo. – Ela dizia olhando para baixo, remexendo os braços.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você não acha que vai se machucar, de novo? – Lisa olhava para ela, com medo da amiga sofrer.</p>
<p style="text-align: justify;">– Acho que se não tentar, vou sofrer mais ainda, eu sei que mal o conheço, mas sinto como se conhecesse. – Ela sorriu tímida e olhou a amiga.</p>
<p style="text-align: justify;">– Bom, eu aprovo então, se você vai ficar feliz!</p>
<p style="text-align: justify;">– Obrigada por me entender. – Ann olhou ao redor.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu acho que ele está lá no outro pátio com o amigo dele o Piedro. – Lisa apontou para trás, sorrindo, entregou alguns doces para ela e viu Ann andando procurando por Luis. Lisa colocou as duas mãos na cintura e suspirou. Mirian e Yue foram perto vendo Ann sair. – Eu sou demais, né?</p>
<p style="text-align: justify;">– Por quê? – Yue olhou para ela, sem entender, Lisa colocou a mão na cabeça de Yue e afagou como um cachorro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você ainda é muito jovem para aprender, Yue.</p>
<p style="text-align: justify;">Mirian revirou os olhos e voltou a colar cartazes.</p>
<p style="text-align: justify;" align="center">✿⊹⊱         »«            ⊰⊹✿</p>
<p style="text-align: justify;">Ann viu Piedro conversando com um grupo de amigos, mas Luis não estava lá. Ela ficou atrás de uma pilastra ouvindo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nossa Luis, toda a escola tá sabendo do babado, então o Luis é o maior garanhão? – Um garoto perguntou.</p>
<p style="text-align: justify;">– E eu achando que ele era um santinho. -Uma garota loirinha estava sorrindo e comentando junto com as amigas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sempre o achei um gato. – Uma das amigas também comentou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu já fiquei com ele! Cinco vezes! – Outra garota morena se gabou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ele já foi em casa!</p>
<p style="text-align: justify;">Ann saiu correndo antes que pudesse ouvir mais bobeira.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você ficou com ele cinco vezes? Ele nem sabe quem é você! Pode parar de mentir só por causa de todo esse bafafá, ele me contou que não namorava prima nem dele e nem de ninguém! – O sinal tocou e o grupo saíram para ir para a sala. Luis saiu do banheiro depois de dois minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Cara, eu não tô me sentindo bem. – Ele estava pálido, os cabelos úmidos e o rosto suando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Caramba, o que uma garota não faz com um cara. – Luis riu e se levantou. – Vamos lá na diretoria. – Ele ajudou o amigo, que estava meio cambaleando. – Sério que cê tá assim por causa da mina?</p>
<p style="text-align: justify;">– Não viaja Piedro, único que fica doente por causa de uma garota é você, blastoise!</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei, foi uma vez só que eu vomitei! Mas eu não tinha culpa, a Melina estava tão linda e aquela torta de sardinha não tava legal.</p>
<p style="text-align: justify;">– Harram, harram, e eu acredito. – Ele sentou em um banco da diretoria.</p>
<p style="text-align: justify;">– Cê nem sabe o que estão falando de você! – Piedro riu, assinando em um livro. – As minas do 3°E estão falando que já ficaram com você, outra disse que até cinco vezes. Eu nem sabia que você ficou com mais de três.</p>
<p style="text-align: justify;">– Piedro, chama a diretora logo. – Piedro olhou Luis, ele estava com a cabeça baixa tentando respirar de um jeito como se o ar estivesse acabando.</p>
<p style="text-align: justify;">– Caraca! – Piedro se virou e começou a bater no vidro para chamar alguém da secretaria. – Ele olhou para trás e Luis estava sentado meio deitado de um jeito desengonçado na cadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">– Piedro! Quer parar de fazer bagunça! – Uma senhora apareceu do outro lado do vidro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Chama o Samu Dona Clara! – Ele saiu correndo indo até Luis. – Luis! Cara, acorda! – Ele deu uns tapinhas na cara do amigo, e arrumou ele deixando ele sentado, o corpo do amigo estava mole e super quente. Ele se levantou e foi no vidro de novo. – Dona Clara!!!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu estou ligando já!</p>
<p style="text-align: justify;">– Que bagunça é essa na diretoria? – A diretora apareceu, olhando Piedro.</p>
<p style="text-align: justify;">– Senhora Carmen! É o Luis! Ele desmaiou. – Ele apontou para o amigo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Oh, céus, Clara!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu já liguei!</p>
<p style="text-align: justify;">– Piedro ligue o ventilador. – Piedro obedeceu. – Ele comeu?</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não sei, ele ficou o tempo inteiro no banheiro no intervalo. Vou ligar para a mãe dele. – Piedro pegou o celular no bolso e começou a digitar uns números.</p>
<p style="text-align: justify;">– Luis, querido, acorde&#8230; – A diretora sentou-se ao lado dele, abanando inutilmente com as mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">Apareceu o zelador com dois homens uniformizados com macacões vermelhos escrito SAMU, um estava com uma maca em baixo do braço. Piedro ficou olhando enquanto eles colocavam algo no nariz do amigo e bombiando um objeto que já tinha visto em um seriado. Um dos homens fizeram a mesma pergunta que a diretora entre outras pergunta que ele não sabia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu&#8230; eu não sei, ele ficou no banheiro, moço. Quando voltou ele estava suando, até os cabelos dele estava molhado. – Piedro já tinha avisado a mãe dele, que parecia histérica no celular. – Eu sei que ele é alérgico a montão de coisa, mas tenho certeza que ele não comeria nada disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Os homens levaram o amigo para a ambulância enquanto Piedro avisava a mãe em qual hospital levariam ele. A diretora não deixou que Piedro fosse junto, prometendo a ele que ela iria e cuidaria dele, que ele voltasse para a aula e guardasse as coisas de Luis.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Luis subiu para aula estava mais que a metade, a professora só permitiu que ele entrasse na aula porque Clara estava junto e explicou a situação, Luis entrou, guardando os materiais do amigo e os dele, deixando apenas um caderno e uma caneta, não conseguia prestar atenção na aula.</p>
<p style="text-align: justify;" align="center">✿⊹⊱         »«            ⊰⊹✿</p>
<p style="text-align: justify;">O ocorrido já estava voando pela escola, estava na última aula, Lisa, Ann, Yue e Mirian estavam sentadas na arquibancada vendo os meninos da sala jogarem, enquanto esperavam pela vez das meninas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Vocês ficaram sabendo o que estão falando pela escola? – Uma das meninas da sala delas estava conversando com outra amiga. – Parece que o Luis foi para o Hospital. – Ann e as amigas olharam para elas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Que Luis? – A amiga perguntou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Aquele que ficou com a Fabiana, amiga da Claudia.</p>
<p style="text-align: justify;">– Com quem que a Fabiana não ficou? – Elas riram.</p>
<p style="text-align: justify;">– Então, parece que entrou alguém na escola e ele viu e tentou gritar, ai bateram nele, até ele desmaiar.</p>
<p style="text-align: justify;">– Caramba!</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu ouvi outra coisa. – Uma outra menina da sala que estava sentada um pouco longe falou com as duas.</p>
<p style="text-align: justify;">– O quê? – As duas olharam.</p>
<p style="text-align: justify;">– Parece que outros alunos daquela escola atrás do shopping vieram até aqui, porque o Luis e aquele amigo dele, o Piedro, tinham uma rixa com eles, ai quando o intervalo acabou eles sairam no soco, um tinha até uma faca! – Elas ficaram assustadas.</p>
<p style="text-align: justify;"> – Nossa será que acertou o Luis? Por isso chamaram o SAMU? – Uma outra garota morena que estava com mais duas amigas ali perto comentou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Como você sabe que chamaram o SAMU?</p>
<p style="text-align: justify;">– Uma prima da minha amiga da oitava série viu o carro na frente da escola, da janela da sala dela dava pra ver.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por isso a policia tava ai na frente. – A primeira menina que comentou sobre o Luis falou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não vi policiais na escola.</p>
<p style="text-align: justify;">– Nem eu, eu tenho uma amiga no segundo ano que me contou.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ai meu Deus, acaba logo com isso, porque as horas nunca vão rápido quando você quer? – Mirian colocou as mãos no rosto com a cabeça baixa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Você acha mesmo que aconteceu isso? – Ann olhou Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não sei, é cada coisa que se escuta nessa escola, lembra-se do Leandro da semana passada? Falaram que ele tomou um tiro, porque ele tinha incendiado o banheiro feminino da escola da rua da Larissa. E no fim ele só tinha ido embora mais cedo porque a mãe dele estava tendo um bebe.</p>
<p style="text-align: justify;">– Fora que disseram que o pai dele tinha sido preso por roubar um posto de gasolina no mesmo dia. – Mirian olhou para Ann. – E o pai dele morreu faz quase uns 10 anos. Se espirito precisa de gasolina, quero nem saber o que mais os mortos vão roubar.</p>
<p style="text-align: justify;">– A escola é um bom lugar para se aprender. – Yue falou um pouco baixo, as amigas olharam para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Quê? – Mirian franziu a testa olhando para a garota.</p>
<p style="text-align: justify;">– Digo&#8230; que nem tudo o que se ouve é verdade. Que você deve ouvir da própria pessoa o que aconteceu. – Yue sorriu olhando Ann.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ahh, entendi, entendi. Ela tá falando do treco do Luis com a Ann. – Lisa olhou para Yue e fez uma joia para ela. – Você é tão inteligente! Por isso te adoro! – Ela pulou em cima de Yue abraçando-a.</p>
<p style="text-align: justify;">– Não que eu não tenha já falado isso. – Mirian olhou para Ann, se levantou, indo para a quadra.</p>
<p style="text-align: justify;">– Apesar de que ela fala de um jeito que ninguém entende! – Lisa riu e se levantou.</p>
<p style="text-align: justify;" align="center">✿⊹⊱         »«            ⊰⊹✿</p>
<p style="text-align: justify;">A campainha da residência estava tocando, um senhor com seus 70 e tantos anos atendeu, sorrindo, mostrando alguns dentes que faltavam, na sua frente um grupo de colegiais meninas estavam com algumas flores e umas caixas.</p>
<p style="text-align: justify;">– Entrem, entrem, vocês devem ser amigas do Luis.</p>
<p style="text-align: justify;">– Prazer senhor, eu sou a Lisa, essa é a Ann, Yue e Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– O Luis nem estava esperando por mais amigos. – Ele foi à frente, guiando o caminho, a casa era simples, mas muito bonita, tinha cheiro de rosas e de remédios.</p>
<p style="text-align: justify;">– Por que que eu tô aqui mesmo? – Mirian perguntou sendo a ultima da fileirinha.</p>
<p style="text-align: justify;">– Shiiuuu, seja educada! – Lisa olhou para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Querido, tem umas amigas aqui que vieram ver você. – Ele abriu a porta do quarto, Piedro estava ali deitando em um sofá marrom, lendo um HQ, Luis estava deitado na cama lendo outro HQ.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando viu que as meninas estavam ali, principalmente Ann ele se sentou direito e corou.</p>
<p style="text-align: justify;">– O-oi. – Ann olhava para baixo, super sem graça.</p>
<p style="text-align: justify;">– Compramos umas flores pra você. – Lisa foi perto dele e entregou uma orquídea. – Me desculpe. – Ela voltou para onde estava e olhou Yue.</p>
<p style="text-align: justify;">– E um ursinho. – Yue foi perto também entregando um ursinho que tinha um Band-Aid colorido em cima do nariz, era pequeno e tinha uma fita vermelha amarrada no pescoço.</p>
<p style="text-align: justify;">– Mirian! – Lisa olhou para Mirian.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah! E elas compraram isso! – Ela foi perto, só não jogou o pacote quadrado em cima dele porque não sabia se ia machucar. – São bombons, eu não tive nada haver com isso! – Ela voltou onde estava, cruzando os braços, incomodada e sem graça por entregar um presente a alguém que mal conhecia.</p>
<p style="text-align: justify;">Luis sorriu, abriu o pacote e tinha alguns bombons. Ele olhou para Ann e voltou a olhar os bombons.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei, o que cê tá lendo? – Mirian viu Piedro e foi perto.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ah é do The Walking Dead. Eu baixei e imprimi, quer ler?</p>
<p style="text-align: justify;">– Essa série é muito da hora. – Mirian comentou. Piedro se sentou direito e entregou o primeiro para ela, Mirian se sentou. Yue foi perto deles também.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu trouxe sua tarefa que a professora Vanessa mandou. – Yue não era da mesma sala que eles, mas ela era uma das únicas alunas que os professores confiavam para se deixar as tarefas e provas dos outros alunos. Ela olhou para Luis e deixou em uma estante, sentando do lado de Mirian vendo alguns HQ também.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ahhh, esse é foda! – Lisa olhou para o HQ na mão de Mirian e foi perto. Eles continuaram conversando entre si, como se Luis e Ann nem estivessem ali.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ahn, eu&#8230; – Ann olhou para Luis, que olhava timidamente para ela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu não fiz aquilo e&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu sei. – Ela foi perto dele, estava com uma caixinha, enfeitada. – Me desculpe por acreditar e não perguntar nada para você. – Ela olhou para as mãos dele. – Isso&#8230; é para você, eu não sei fazer como você.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele pegou a caixa que ela estava entregando e abriu, tinha um cupcake todo torto e enfeitado com granulados coloridos.</p>
<p style="text-align: justify;">– Eu amei. Deve estar maravilhoso! – Ele sorriu e segurou a mão dela.</p>
<p style="text-align: justify;">– Ei, deixa eu ler esse! – Lisa estava em cima de Yue tentando pegar o HQ que Mirian estava lendo.</p>
<p style="text-align: justify;">– Sai menina! Eu tô lendo primeiro! – Mirian tinha enrolado o HQ e tava batendo na cabeça de Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">– Aiiii! Olha eu aqui! – Piedro estava sendo acertado pelas unhas de Lisa e as cotoveladas que Mirian dava sem querer. E Yue sendo amassada por Lisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ann e Luis riram. De mãos dadas.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>Continua no próximo capítulo!</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Baixe o PDF</strong></p>
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<p style="text-align: justify;">(35 páginas)</p>
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		<title>□■ 16 &#8211; Os amigos esquisitos de Sofia</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Apr 2012 09:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[O garoto de calças xadrez]]></category>
		<category><![CDATA[alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[Colegial]]></category>
		<category><![CDATA[Drama]]></category>
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		<description><![CDATA[Após o ensaio de Sofia a menina resolve apresentar seus melhores amigo à Erick, mas as coisas não saem como planejado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/violing_love.jpg"><img class="aligncenter size-thumbnail wp-image-1298" title="violing_love" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/04/violing_love-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p>Guta tinha certeza que as coisas ficaram estranhas e diferentes para todo mundo depois da festa de Joaquim: Não estava falando com Erick e nem com André, o primeiro desaparecia todo intervalo entre aulas certamente para ficar com Sofia, e o segundo, a ignorava enquanto fingia que o seu namoro com Joyce estava a mil maravilhas.</p>
<p>Renato continuava ocupado com seus treinos de basquete e em manter boas notas na escola para tentar entrar na seleção do estadual até o meio do ano. Cecília se dedicava ao jornal da escola, que a cada dia parecia estar mais interessante e cheio de novidades para contar. Cecília pretendia, até o fim do ano, ser editora do jornal e com isso conseguir uma boa indicação em uma revista ou jornal de verdade – em uma editora comercial – para que pudesse começar a pensar em um estágio no futuro capaz de garantir a sua carreira jornalística&#8230; e ia conseguir, ao menos, se esforçava para isso.</p>
<p>Guta se sentia uma fracassada e sem amigos, e passou a semana toda chateada com tudo e com todos, até faltou um ou dois dias, para não ter que encarar André de novo&#8230;</p>
<p>No final da aula, na sexta-feira, quando ia guardando o seu material em sua mochila verde jeans, Erick, que se sentava ao seu lado, comentou, ao ficar em pé:</p>
<p>– A Sofia hoje tem um ensaio extra do recital e queria que eu fosse. Quer ir junto?</p>
<p>– Eu? – Guta surpreendeu-se e fechou o zíper da mochila. – Você tá me ignorando a semana inteira&#8230; nem bom dia tem me dado.</p>
<p>– É, pra falar a verdade eu estava chateado com você. Mas aí a Sofia disse que eu estava agindo errado&#8230; e eu pensei bem&#8230; eu estava mesmo.</p>
<p>– Então o seu convite para o recital é um pedido de desculpas forçado?</p>
<p>– É um pedido de desculpas, mas não forçado. Além do mais depois do ensaio vamos a uma lanchonete e lá tem um milkshake de chocolate que você precisa tomar!</p>
<p>– Nesse caso, vou pensar a respeito. – Guta sorriu.</p>
<p>– Passo na sua casa umas três horas e vamos juntos. – depois disso, saiu da sala apressado.</p>
<p>■□■□■□■</p>
<p>Joyce acertou o seu casaco jeans cor de rosa no corpo e tocou a campainha da casa de André. Os cabelos negros e lisos estavam devidamente alinhados, com a franjinha na frente, penteada. Estava com um vestidinho preto de bolinhas brancas, sandálias e de batom vermelho, parecendo uma Pin-Up Girl saída de um panfleto antigo, procurando estar sensual o suficiente para André. A bolsinha era preta e pequena, parecia um saquinho de pano, com um laço branco como alça.</p>
<p>A porta abriu e Joyce encarou Erick e seus olhos azuis de vidro. Ele estava de saída, de camisa de manga curta verde-exército com botões no ombro e o nome de uma banda no bolso direto. Braceletes de couro até quase a metade do braço, alguns lisos outros com ilhós e alguns com spikes, em ambos os braços. Sua calça, peça como sempre esquisita e exótica, preta e branca como um tabuleiro de xadrez – ou piso de cozinha! – e um coturno militar com a ponta de ferro que na canela tinha uma corrente pendurada por cima da bota.</p>
<p>Joyce ergueu as sobrancelhas. Não tinha visto Erick assim antes, parecendo um rock star, ficava até bonitinho, mas era um figurino exótico que podia sempre ser melhorado.</p>
<p>– Oi Joyce. – sorriu encantadoramente com seus piercings. – Não sabia que você vinha pra cá.</p>
<p>– Tá saindo?</p>
<p>– É&#8230; o André tá lá em cima, pode subir! – avisou, passando pela porta, dado espaço para Joyce entrar em casa. – Você tá bem?</p>
<p>– Estou sim. Aliás, não disse antes, mas obrigada pela ajuda no sábado. – a garota pin-up sorriu um pouco sem graça por tudo o que tinha acontecido. – Dei o maior vexame.</p>
<p>– Acredite, você se comportou bem. Só deixou todo mundo preocupado.</p>
<p>– É, imagino, não sou de beber&#8230; foi a primeira vez.</p>
<p>– Faz parte. – riu. – Mas tente não fazer isso muitas vezes, não combina com você.</p>
<p>– É, eu sei. Mesmo assim, obrigada&#8230; Aonde você vai?!</p>
<p>– Encontrar a Guta e depois vamos até o ensaio da Sofia. – não escondeu. – Por quê?</p>
<p>– Ah! – Joyce considerou que Guta já estava mexendo os pauzinhos para os dois ficarem juntos. E Sofia não perdia mesmo tempo, primeiro aquele lance no parque e agora essa inesperada notícia. – Estava pensando que podíamos combinar com o pessoal de irmos comer uma pizza, ou algo.</p>
<p>– Certo&#8230; – Erick ergueu as duas sobrancelhas, meio sem saber o que dizer. – Se vocês decidirem alguma coisa, basta ligar. Agora preciso ir!</p>
<p>– Tá bem&#8230;! Vamos nos falando! – Joyce fechou a porta e entrou seguindo em direção ao quarto de André. A porta estava fechada, ela bateu algumas vezes.</p>
<p>André abriu a porta com um sorriso, os cabelos cacheados molhados, de calça jeans e uma camisa verde água, com um barco desenhado em branco.</p>
<p>– Estava morrendo de saudades! – disse assim que viu Joyce, abraçando-a com carinho.</p>
<p>Joyce o abraçou e se beijaram. Depois André e Joyce entraram no quarto de André, decorado com pôsteres de ídolos do basquete. A garota sentou-se na cama, enquanto André no rack arrumou o Blue-ray para assistirem.</p>
<p>Enquanto ela soltava as sandálias dos pés, comentou:</p>
<p>– No começo não fui muito com a cara do Erick, mas agora mudei de ideia.</p>
<p>– Como assim? – aquele comentário soou meio fora de contexto para André, que se enciumou, mas procurou não demonstrar, continuando a abrir a bandeja do Blue-Ray e escolhendo um dos filmes que alugou. – Ele é um pé no saco de tão antissocial.</p>
<p>– Antissocial?</p>
<p>– É, fica no quarto, nunca sai&#8230; outro dia o Renato tava aqui e nem desceu pra dar um oi&#8230; mal educado.</p>
<p>– Que estranho, acabei de perguntar a ele se podíamos ir todos comer pizza mais tarde e ele disse que sim.</p>
<p>André gargalhou e fechou a bandeja do Blue-Ray.</p>
<p>– Certeza que ele só foi educado com você, Joyce. Na boa, olha pra ele e depois pra gente&#8230; não somos da mesma turma!</p>
<p>– Ele estava indo com a Guta pro ensaio da Sofia. – Joyce anunciou. – Acho que o antissocial é você, André. Você nem se esforça pra se enturmar com seu próprio irmão.</p>
<p>– Ei! Não somos irmãos, tá bom? – André sabia que o problema não era esse.</p>
<p>– Tá bem, desculpe! Não vou ficar insistindo. Só acho que você podia facilitar um pouco, sabia que a Sofia está a fim dele? Podíamos ajudá-los!</p>
<p>– Sem querer estragar seus planos, mas eu acho que ele é a fim da Guta.</p>
<p>– O que quer dizer?</p>
<p>– Ele tá sempre com ela, ficam horas juntos depois da escola&#8230; acho até que deve estar rolando alguma coisa entre eles. – André sabia que não, mas quanto mais Joyce acreditasse nisso, menos ela desconfiaria que ele havia transado com Guta duas vezes.</p>
<p>– Ih, isso vai dar confusão. – foi o que Joyce comentou.</p>
<p>André, para não dar brecha de o assunto continuar, apertou play para o filme começar.</p>
<p>■□■□■□■</p>
<p>Guta saiu de casa com uma bolsa marrom no braço assim que viu Erick chegar.</p>
<p>– Você não acha que às vezes exagera nos acessórios de rock’n’rol? – Guta comentou assim que se encontraram na rua.</p>
<p>– Não acho.</p>
<p>– A Sofia não acha?</p>
<p>– Não perguntei, por quê?</p>
<p>– Nada, é que ela é tão delicadinha e você com esse visual aí de garoto agressivo. Imagina o dia que você for ser apresentado aos pais dela? Eles vão ter um infarto!</p>
<p>– Guta, você é hilária. – Erick riu e os dois começaram a andar pela rua. – Prometo que nesse dia eu uso umas roupinhas do André, pra parecer uma pessoa normal. Embora o André seja um lobo com pele de cordeiro, correto?</p>
<p>– Nem me diga&#8230; essa semana foi só mais uma prova em como ele é um imbecil. Ele me ligou ontem, para dar boa noite! Depois de me ignorar a semana inteira e ficar se agarrando com a Joyce na minha frente.</p>
<p>– Preferia que você não se envolvesse com essa confusão. A Joyce é uma garota legal, você é uma garota legal e o André é um ridículo&#8230; ele não merece todo o seu esforço.</p>
<p>– O que posso fazer? Gosto dele, gosto há muito tempo&#8230; e ele não é ruim, vai largar da Joyce quando tiver certeza que gosta de mim.</p>
<p>– O que pode demorar ou nunca acontecer. – Erick foi sincero pra variar. – E você e a Joyce nunca mais serão amigas de verdade.</p>
<p>– Eu sei, Erick&#8230; não precisa ficar o tempo todo me lembrando de como eu estou sendo cruel com a Joyce. – reclamou.</p>
<p>– Então pare de ser, Guta.</p>
<p>– Mas dessa forma eu seria cruel comigo.</p>
<p>– Sei lá, você já tem a minha opinião.</p>
<p>– Que eu acho super válida, Erick, mas eu gosto do André e estou disposta a lutar por ele! A Joyce vai entender.</p>
<p>– Vai nada. – ambos pararam no ponto de ônibus, para esperar a condução que os levaria até a rua do curso de música de Sofia. O ponto estava vazio, só havia os dois lá.</p>
<p>– E se fosse com você? Imagine o seguinte: A Sofia tem um namorado e você gosta dela pra caramba, então ela começa a te dar bola, rolam umas coisas&#8230; você ia fazer o quê?</p>
<p>– Primeiro que se a Sofia tivesse namorado e começasse a me dar bola, não ia rolar nada.</p>
<p>– Nem se você estivesse bêbado?</p>
<p>– Tá, se rolasse seria só essa vez, eu não daria continuidade com essa palhaçada. E sabe por quê?</p>
<p>– Não.</p>
<p>– Porque quando começasse a namorar, eu nunca confiaria nela e acharia que ela estaria dando bola pra outro.</p>
<p>– Discordo, eu acho que quando a gente gosta de verdade, não trai. Portanto o que acontece é que o André não gosta da Joyce de verdade!</p>
<p>– E nem de você, se você pensar um pouco no assunto.</p>
<p>– Isso é cruel de se dizer, Erick.</p>
<p>– É sincero. Não vou enganar você para que você se sinta momentaneamente feliz e certa, Guta. O André tá na situação mais cômoda do mundo e vai ferrar com você e com a Joyce, porque ele não gosta de nenhuma de vocês duas.</p>
<p>– Erick, você só está falando isso porque não gosta do André.</p>
<p>– Você quer trair a Joyce e roubar o André dela? Faça. Mas não espere que eu vá te apoiar nessa ideia maluca, ridícula e errada que não vai te trazer nenhum bem.</p>
<p>– Poxa, dá pra você se esforçar e tentar me compreender?</p>
<p>– Eu compreendo, Guta. Você tá apaixonada e fazendo merda.</p>
<p>Guta ficou calada, chateada com Erick. Ela tinha medo que ele tivesse razão e, portanto, recusava-se a escutar os conselhos do amigo. Para ela, essa era a chance de ficar com o amor da sua vida, André, que ela sabia que estava agindo assim porque estava confuso com tudo isso, com todos esses sentimentos. Guta tinha certeza que André nunca faria uma coisa dessas se gostasse de Joyce de verdade.</p>
<p>O ônibus chegou e os dois ficaram em silêncio todo o caminho. Era até engraçado como eles sempre brigavam por isso, em como Erick se importava com os sentimentos de Joyce com quem ele nem conversava, ao menos, era isso que Guta achava.</p>
<p>■□■□■□■</p>
<p>Sofia estava no palco com seu violino no ombro. Os cabelos presos em rabo de cavalo, lisos, porque não tinha tido paciência de usar o revelador de cachos e ficar horas se arrumando.</p>
<p>Isabella estava do seu lado, uma japonesa baixinha e magrinha, de rosto redondo, usando uma luva de renda negra na mão direita e uma pulseira de estampa de zebrinha na esquerda. Adorava estampa de zebras e seu All Star era com essa estampa. Seus cabelos eram compridos e lisos, enfeitados com muitas presilhas prateadas com glitter.</p>
<p>– Tá bem, vamos tentar mais uma vez. – disse Ênio, da ponta do palco, um rapaz magricelo e alto, com cabelos tingidos de azul e roxo, arrepiados com gel, de olhos azuis e pele bem clara. Sua função naquela tarde era ajudá-las a regular o som. – Pronto&#8230;</p>
<p>Isabella começou a introdução novamente, mas o som não saiu.</p>
<p>– Ênio, você é uma droga! – reclamou. – Pra regular pra sua banda você sabe, seu pedaço de banana amarga!</p>
<p>– Estou ficando cansada&#8230; – Sofia reclamou, porque estava há mais de meia hora na mesma posição de introdução e nunca dava certo. Tirou o violino do ombro e se esticou. – Vamos ficar com o acústico mesmo, acho o som bem melhor.</p>
<p>– É uma boa saída. – Ênio esticou as costas. – Não aguento mais ficar de cócoras!</p>
<p>– Tá bem, no dia do recital vai estar tudo regulado pelos professores, que sabem o que estão fazendo! – Isabella não perdeu a chance de caçoar de Ênio. Desceu do palco para pegar seu violino e pegou o case de Sofia, levando até a amiga.</p>
<p>A porta da entrada principal abriu. Guta colocou a cabeça para dentro do teatro e avistou Sofia lá em baixo.</p>
<p>– Sofia! – anunciou sua chegada e escancarou a porta.</p>
<p>Sofia ergueu a cabeça e viu Guta descendo os degraus do teatro. Erick vinha logo atrás dela, mas parou para fechar a porta que Guta escancarou sem necessidade.</p>
<p>Isabella levantou-se curiosa, porque estava esperando conhecer o novo namorado de Sofia. Torceu o nariz assim que viu o garoto: esperava que Sofia apresentasse um mauricinho de moletom GAP e calça da TNG, de tênis Pulma vermelho&#8230; e não um metaleiro cheio de spikes e calça quadriculada ridícula.</p>
<p>– Olá. – Sofia respondeu e desceu do palco. – Essa é a Isabella, e esse o Ênio.</p>
<p>– Vocês vão tocar todos juntos? – Guta quis saber.</p>
<p>– Eu e a Isabella. – Sofia respondeu com um sorriso. – O Ênio estava tentando nos ajudar com o som&#8230; tem a banda dele, onde a Isa também toca!</p>
<p>– É, mas na banda eu toco guitarra! – Isabella comentou, descendo do palco também e indo cumprimentar Guta. – O Ênio é o baterista.</p>
<p>– Ah, que legal! – Guta cumprimentou Ênio também.</p>
<p>– Essa é a Guta, minha amiga do colégio, e esse o Erick. – Sofia apresentou os amigos, abraçando-se com o garoto. Deu-lhe um selinho.</p>
<p>– Oi. – foi a única coisa que Erick disse.</p>
<p>Sofia voltou para o palco em seguida.</p>
<p>– Fiquem à vontade. – Isabella falou, seguindo a amiga. – Estamos com um probleminha no som, mas não iremos desapontá-los!</p>
<p>– A Isa como violinista é uma ótima guitarrista! – Ênio brincou, indo sentar-se em uma das poltronas da primeira fileira.</p>
<p>Guta e Erick sentaram-se também, para assistir ao ensaio.</p>
<p>Foi um desastre! Isabella não conseguia acertar a introdução e teve que repetir umas quinhentas vezes, a ponto de irritar Ênio, que ficava pegando no pé da japonesa, atrapalhando ainda mais. Quando finalmente conseguiram passar da introdução, a música fluiu bem.</p>
<p>Guta impressionou-se com o talento de Sofia, ainda não tinha visto a amiga tocar violino e sempre ouvia Cecília debochar dela com piadinhas sem graça.</p>
<p>Nunca havia sido convidada para nenhum recital, mas Sofia tinha talento! Expressava-se bem no palco e nem parecia ter dificuldade com o instrumento, tocando com um sorriso e com leveza nos movimentos.</p>
<p>Ao fim da tarde, as duas violinistas já cansadas, finalizaram o ensaio:</p>
<p>– Eu estou com fome, podemos ir comer?! – Isabella quem anunciou, espreguiçando-se.</p>
<p>– É, eu também. – Sofia guardou o violino. – Vou me arrumar, esperem a gente lá na porta!</p>
<p>– Tá bem! – Ênio confirmou.</p>
<p>Isabella e Sofia saíram por detrás do palco, indo em direção ao camarim dos artistas, onde tinha um banheiro com pia e espelho para se arrumarem.</p>
<p>– Não vou deixar mais você trazer esse tal Erick. Você não parava de tremer, foi horrível! – Isabella comentou, assim que entrou no banheiro com a amiga.</p>
<p>– Eu sei, Isa! – Sofia confessou enquanto lavava o rosto. Secou-se com a toalha de papel. – Estava tão nervosa&#8230; e era só o ensaio, imagina o recital!</p>
<p>– Ele é meio calado, né? – Isabella contornava seus olhos com lápis preto.</p>
<p>– Só quando tem muita gente&#8230; – abriu a bolsa e pegou um batom brilhante e alaranjado, passando nos lábios. – Você esperava alguém mais <em>boyzinho</em>, né?</p>
<p>– Eu esperava aquele Renato que veio aqui daquela vez.</p>
<p>Sofia riu, achando graça.</p>
<p>– Eu trouxe o Renato para ele conhecer você, bobona!</p>
<p>– O cara pra namorar comigo tem que gostar de NX Zero!</p>
<p>– O Renato deve gostar. Não sei.</p>
<p>– Esse Erick é metaleiro&#8230; Não tem nada a ver com você! Onde foi que você o arrumou, hein?</p>
<p>– Na escola. – Sofia terminou de se arrumar. – Vamos?</p>
<p>– Vamos. – Isabella sorriu pelo espelho para Sofia.</p>
<p>■□■□■□■</p>
<p>Assim que se sentaram à mesa redonda da lanchonete, o garçom aproximou-se. Todos pediram milkshakes de chocolate e seus respectivos sanduíches. Enquanto esperavam o pedido, Ênio iniciou o assunto da conversa:</p>
<p>– E então Erick? Como você conheceu a Sofia?</p>
<p>– Derrubando suco de goiaba nela.</p>
<p>– Isso foi na festa do André? – Guta indagou.</p>
<p>– No colégio&#8230; no meio do pátio, fiquei toda suja!</p>
<p>– Pior é você ter desculpado! – Isabella caçoou.</p>
<p>– Ele foi fofinho, me emprestou o uniforme dele. – Sofia contou. – E depois trouxe o meu uniforme limpinho de volta.</p>
<p>– É, nesse caso, ganha mesmo um ponto, Erick. – Guta riu.</p>
<p>– Eca, você vestiu o uniforme sujo de suco da Sofia? – Isabella indagou.</p>
<p>– Claro que não.</p>
<p>– Se bem que usar a camiseta da Sofia ia ficar tipo babylook em você. – Ênio comentou.</p>
<p>– E cor de rosa&#8230; – Guta continuou.</p>
<p>– Nesse caso você perderia cinco pontos. – Sofia deu a nota. – Rosa não combina com seu tom de pele. – Todos riram da piada de Sofia, inclusive Guta, que não sabia que ela tinha um senso de humor&#8230; mesmo com uma piada chata.</p>
<p>– E você já passou pelo teste da Cecília, Erick? – Ênio quebrou o clima divertido da mesa, com a pergunta indevida que chegava a ser indelicada.</p>
<p>– Que teste? – Erick não entendeu.</p>
<p>Sofia perdeu todo o seu bom humor com o comentário de Ênio, Isabella percebeu e beliscou o amigo por baixo da mesa, que sem noção, berrou:</p>
<p>– Ai, Isabella, por que me beliscou?!</p>
<p>– Você é um idiota. – Isabella comentou. – Não liga pra ele, Erick.</p>
<p>– Eu não sou idiota e fiz uma pergunta simples, todo mundo sabe que a Cecília morre de ciúmes da Sofia. – Ênio continuou, encarou Erick que esperava o resto da história. – Ela é doente, sério&#8230; não deixa a Sofia namorar ninguém.</p>
<p>– O Ênio acha que a Cecília gosta de roubar os namorados da Sofia. – Isabella disse, torcendo o nariz.</p>
<p>– E não é verdade. – Sofia chateou-se. Não gostava que falassem essas coisas de sua irmã. – Tive um namorado que deu em cima da Cecília, afinal somos gêmeas e ele confundiu.</p>
<p>– Ela fez de propósito, Sofia! Tenho certeza que fingiu ser você. – Ênio irritou-se. – Estou falando sério! Ela é doente!</p>
<p>Guta não disse, mas concordava com Ênio. Às vezes tinha a mesma impressão de Cecília.</p>
<p>– Não importa. – Erick deu de ombros, não queria falar em Cecília e não gostava de ouvir conselhos para tomar cuidado com ela&#8230; mesmo que fosse verdade, era chamá-lo de idiota! Como se ele não fosse capaz de reconhecer Sofia entre elas ou como se ele não soubesse se defender.</p>
<p>– Você nem liga, né? Deve achar o máximo, vai tentar ficar com as duas? – Ênio continuou com a hostilidade.</p>
<p>– Ei, qual o seu problema? – Erick comprou a briga de Ênio. – Não é porque um dos namorados dela era um imbecil que eu vou ser também. Se você tem algum problema com a Cecília por que não vai lá resolver com ela?</p>
<p>– Calma, gente. – Sofia interveio. – A Cecy não faria isso. E eu não quero ficar falando de ex-namorado nenhum na frente do Erick, pode ser?</p>
<p>– Pode. – Isabella foi a primeira a concordar.</p>
<p>– Chega, não aguento mais esse papo. – Ênio levantou-se da mesa abruptamente. – Vou embora!</p>
<p>– Vai logo de uma vez!</p>
<p>– Erick! – Sofia o repreendeu e ele deu de ombros. Ênio saiu da mesa indo até a porta. Sofia suspirou e encarou Erick. – Olha o que você fez!</p>
<p>– Eu? Fala sério, Sofia! Só falta me dizer que não percebeu que ele está com ciúmes.</p>
<p>– O Ênio é meu amigo, Erick!</p>
<p>– É, você não percebeu! – e com um sorriso de deboche chacoalhou a cabeça.</p>
<p>– Você tá sendo rude! Vou lá falar com ele&#8230; – Sofia ficou em pé, mas Erick a segurou pelo braço.</p>
<p>– Ei! Não vai, não!</p>
<p>– Deixa que ele vá embora, Sofia. – Guta se meteu. Mesmo que concordasse com Ênio, estava do lado de Erick.</p>
<p>– O Ênio tá irritando de propósito. – Isabella comentou um pouco chateada. – Você sabe como ele às vezes é insuportável.</p>
<p>Sofia suspirou resignada e sentou-se novamente, com ares de chateação. Queria que seus amigos se dessem bem com seu futuro namorado.</p>
<p>O clima na mesa continuou estranho, mas todos tentaram continuar curtindo a noite sem deixar-se abalar completamente com a cena.</p>
<p>■□■□■□■</p>
<p>André estava com Guta, trancado em seu quarto, beijando aquela boca deliciosa e apertando seus seios redondos&#8230; na sua imaginação.</p>
<p>Caramba, como Guta era gostosa!</p>
<p>Não tinha nem outra palavra, era isso mesmo: gostosa. Com todas as letras e sílabas. Estava excitado apenas de lembrar do corpo carnudo de Guta. Ela era carnuda, sim! Quente e macia! Nem parecia que era mesmo virgem como dissera, antes daquela noite no quarto de Erick&#8230;</p>
<p>E esses pensamentos o trouxeram de novo para a realidade: “O que é que você está fazendo, porra?!” Foi isso o que Erick disse para ele sábado quando estava chegando em casa depois da festa, com uma voz de reprovação assustadora.</p>
<p>Na hora respondeu “Não se mete.”, mas a verdade era que Erick tinha razão!</p>
<p>O que ele estava fazendo?!</p>
<p>Se gostava de Joyce porque ficava correndo atrás de Guta?! E se gostava de Guta por que é que não terminava com Joyce?! Qual era o seu problema, afinal?</p>
<p>André tirou as mãos de dentro de sua calça.</p>
<p>Estava sendo sacana.</p>
<p>Isso era coisa de gente retardada: não saber o que quer da vida, não saber de quem gosta de verdade, ser volúvel, trair&#8230; isso era coisa de gente retardada e estava sendo retardado com duas pessoas especiais: Joyce, sua namorada e Guta, sua amiga de infância!</p>
<p>Devia terminar logo com Joyce e ficar com Guta&#8230; seria o mais sensato, já que estava com esse tesão todo por Guta. O problema era que com Guta era só isso, era só tesão&#8230; e com Joyce não. Com Joyce era amor, puro amor.</p>
<p>É. Chega. Estava decidido. Daria um ponto final nesse relacionamento maluco e cheio de fogo com Guta e ia tratar bem de Joyce! Ia namorá-la como um verdadeiro príncipe, porque era isso que Joyce merecia!</p>
<p>Amava Joyce. Joyce era sua escolha. Joyce.</p>
<p>Preparava-se para dormir sentindo-se um monstro, quando um estrondo o acordou do estado de quase sono em que se encontrava. Acordou de supetão arregalando os olhos e sem pestanejar abriu a porta de seu quarto, para verificar o que estava acontecendo.</p>
<p>O corredor estava vazio e o barulho vinha do andar de baixo, da sala talvez. Com os pés descalços pisou devagar descendo a escada, um pouco desconfiado.</p>
<p>Olhou para o relógio da mesinha do telefone, era um relógio de vidro e metal dourado. Duas e meia da manhã. Será que era um ladrão tentando entrar pela porta? Ouviu alguns sussurros e a fechadura da porta destrancou. André sentiu todos os seus ossos se arrepiarem&#8230; e depois congelarem em um susto: a porta abriu e ele encarou Erick, visivelmente bêbado, segurando-se para não cair. Derrubou as chaves no chão e tropeçou no tapete da entrada, assim que passou pela porta.</p>
<p>– Erick! – André levou o maior susto de sua vida e correu para socorrer o irmão postiço, ajudando-o a ficar em pé.</p>
<p>– Ai, ai ai&#8230; – Erick reclamou quando André o puxou pelo braço, fazendo-o ficar em pé. Não estava com equilíbrio suficiente para andar.</p>
<p>André olhou para fora procurando alguém, mas aparentemente Erick estava sozinho. Encostou o irmão na parede.</p>
<p>– Fica quietinho. – disse em sussurros para Erick. Pegou as chaves do chão e trancou a porta. Voltou a encarar Erick que já escorregava sentando-se no chão. – Não, não! – levantou o irmão novamente, passando o braço de Erick por seu pescoço e o segurando na cintura, para equilibrar-se. – Que bosta, Erick! Onde você estava?!</p>
<p>– Eu preciso vomitar. – foi tudo o que Erick disse.</p>
<p>Quando percebeu, André estava subindo as escadas com Erick o mais rápido que podia, até chegarem ao banheiro do corredor, onde Erick vomitou aparentemente tudo o que havia ingerido naquela noite.</p>
<p>– Que isso, cara! O que aconteceu? – André estava assustado.</p>
<p>No mesmo instante a porta do quarto de seus pais abriu.</p>
<p>Da porta, Márcio encarou André de pijama em pé no corredor, com a luz do banheiro acesa e aparentemente alguém vomitando. Erick, pelo visto.</p>
<p>André ficou branco quando viu Márcio, porque o homem imediatamente perdeu a expressão de sono, adotando uma carranca severa. Olhou no relógio de pulso que horas eram e caminhou até o banheiro.</p>
<p>– O que está acontecendo? – e viu por si mesmo, seu filho mais que bêbado vomitando. Virou os olhos impaciente e colocou uma mão ao ombro do seu enteado. – Vai pro quarto, André.</p>
<p>– Mas pai&#8230;</p>
<p>– Eu não vou repetir. – foi firme.</p>
<p>– Certo. – André a contragosto deu meia-volta e entrou em seu quarto, sem contestar, mas ficou com a orelha grudada na porta, tentando escutar tudo.</p>
<p>Márcio suspirou irritado mais uma vez. Aproximou-se de Erick segurando em seu braço para ajudá-lo a ficar em pé.</p>
<p>– Ei, ei&#8230; você tá bem?</p>
<p>– Eu estou ótimo. – Erick relutou para soltar-se dele. – Só enjoado. – E voltou a curvar-se para vomitar um resto de álcool.</p>
<p>– Estou vendo. – Márcio foi de novo ajudá-lo a ficar em pé. – Isso precisa acabar, Erick.</p>
<p>– Eu não pedi a sua ajuda, me solta. – relutou novamente e com dificuldades ficou em pé se segurando na pia, enquanto lavava o rosto sem jeito.</p>
<p>– Por que não toma um banho, filho?</p>
<p>– Para, não me chama assim! – protestou, com uma careta sentindo-se enjoado de novo. – Sai daqui, eu não chamei você! Eu não quero sua ajuda!</p>
<p>Márcio não queria discutir com seu filho daquela forma, mas isso o irritou profundamente. Mais irritou do que magoou. Por isso, não insistiu:</p>
<p>– Ótimo, se vira sozinho. Amanhã teremos uma boa conversa, mocinho. – e com isso, voltou todo o corredor e fechou a porta do seu quarto, fingindo toda a indiferença possível.</p>
<p>Erick vomitou mais uma vez e por fim, recostou-se contra a parede do banheiro, sentindo seu estômago queimar de tanta dor. Droga. Queria estar em sua verdadeira casa, deitado em sua verdadeira cama.</p>
<p><strong>Continua no próximo capítulo&#8230;</strong></p>
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<p>(23 páginas)</p>
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		<title>Escrito em Linhas Tortas</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Apr 2012 14:33:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>novelasteenbr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Escrito em Linhas Tortas]]></category>
		<category><![CDATA[Dark Fantasy]]></category>
		<category><![CDATA[Demônios]]></category>
		<category><![CDATA[Mariana Mello Sgambato]]></category>
		<category><![CDATA[Romance Sobrenatural]]></category>

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		<description><![CDATA[Julia não imaginava as consequencias de um simples desejo até seu destino ser drasticamente mudado ao conhecer Bruno, um sombrio garoto que apresenta a ela um livro mágico capaz de realizar todos os desejos nele escritos, mas adverte: os desejos escritos no pequeno livro vermelho nunca terminam em coisas boas! Diante da promessa de nunca utiliar o livro para nada, Julia enfrentará seu difícil dia-a-dia, com uma paixão não correspondida e os divórcio indesejado de seus pais... será que Julia será capaz de manter sua integridade e honrar a promessa que fez? E que mal pode fazer um simples desejo? Um sombrio romance de Mariana Mello Sgambato que fará você contestar o certo e o errado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/03/capa_pequena2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1261" title="capa_pequena2" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/03/capa_pequena2.jpg" alt="" width="200" height="288" /></a></p>
<p><a href="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/03/14years.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1251" title="14years" src="http://novelasteen.com.br/wp-content/uploads/2012/03/14years.jpg" alt="" width="295" height="64" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sinopse:</strong> Julia não imaginava as consequencias de um simples desejo até seu destino ser drasticamente mudado ao conhecer Bruno, um sombrio garoto que apresenta a ela um livro mágico, capaz de realizar todos os desejos nele escritos, mas adverte: os desejos escritos no pequeno livro vermelho nunca terminam em coisas boas! Diante da promessa de nunca utilizar o livro para nada, Julia enfrentará seu difícil dia-a-dia, com uma paixão não correspondida e o divórcio indesejado de seus pais&#8230; será que Julia será capaz de manter sua integridade e honrar a promessa que fez? E que mal pode fazer um simples desejo? Um sombrio romance de <em>Mariana Mello Sgambato</em> que fará você contestar o certo e o errado.</p>
</blockquote>
<p>Modelo da capa: Yume Murakami</p>
<h2>†  Menu †</h2>
<p>† Personagens</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3>Capítulos</h3>
<p>†  Introdução: Sebo da Esquina <a href="http://novelasteen.com.br/?p=1303" target="_blank">Leia Online</a> // <a href="http://issuu.com/marianasg/docs/elt_00" target="_blank">Baixe o PDF</a></p>
<p>† 01. Julia e o Cenobita *breve*</p>
<p>† 02. Erros na &#8220;Matrix&#8221; *breve*</p>
<p>&nbsp;</p>
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